O Filho de Deus vivo

21/08/2017 às 08h19

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

O ato de fé de São Pedro foi uma resposta à interrogação de Jesus: “Quem sou eu”? (Mt 16,13-20). Com uma firmeza impressionante o Apóstolo responde: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Nem Herodes, nem Caifás, nem os doutores da Lei reconheceriam assim a Cristo. Entretanto, a magnífica profissão de fé de Simão Pedro não foi um mérito pessoal, uma dedução dele mesmo, mas lhe foi dada inspirada por Deus. Jesus mesmo lhe declarou que esta revelação não lhe veio nem da carne nem do sangue, mas do Pai que está nos céus. A fé é um dom divino, uma virtude sobrenatural infundida pelo próprio Senhor Onipotente. Para afirmar e confirmar esta fé, o batizado tem necessidade da graça divina, dos socorros interiores do Divino Espírito Santo. Este toca o coração e o inclina para Deus. Eis porque Pedro se apoiava somente no seu Mestre Onipotente. Era uma fé pessoal. Na verdade, porém, Cristo se dirige ao grupo dos discípulos, mas também a cada um em particular e lhes pergunta: “Para vós quem sou eu”? A resposta deveria ser pessoal. Pedro, de fato, não responde em nome de todos, mas em seu nome. Ele acreditava no que dizia pela graça, pela luz que lhe foram dadas. A fé não é nunca imposta. Está escrito no Apocalipse: “Eis que estou à porta e bato. Se alguém escuta minha voz e abre a porta, eu entrarei, eu tomarei minha refeição com ele e ele comigo” (Ap3, 20).

Cada dia Cristo demanda a cada um de seus seguidores: “Quem sou eu”. Espera uma resposta sincera como aquela que Pedro lhe deu: "Tu és o Messias, o filho do Deus vivo”. É bom então que cada um de nós tome um tempo pessoal, de silêncio, para escutar esta indagação de Jesus: “Quem sou eu para você”? A resposta não deve ser só intelectual, uma fórmula memorizada do catecismo, mas retorno vindo do fundo do coração, da vivência completa dos ensinamentos deste Mestre divino, do relacionamento profundo, particular, privilegiado com Ele. Isto deve se dar, sobretudo, no momento venturoso momento da Comunhão, quando é preciso verificar se Ele tem sido, de fato, o caminho, a verdade e vida de cada um. É de se notar ainda que Pedro não apenas proclamou Jesus como Messias, mas também como o Filho do Deus vivo. Deste modo, o Apóstolo não somente designa a missão de Jesus, sua ação a ser realizada nesta terra, mas confessa na realidade o que Ele é, ou seja, o Verbo Eterno de Deus. Pedro penetrara no mistério trinitário, mostrando a comunhão entre o Pai e o Filho. Confessar Cristo na sua messianidade era já um ato maravilhoso de fé, extremamente profundo, importante e decisivo para os que nele cressem. Entretanto, Pedro foi além, sendo o primeiro a confessar publicamente junto da comunidade dos discípulos a razão de ser da divindade de Jesus.

A fé dos apóstolos e dos cristãos seria como que um eco da vibrante proclamação petrina. Como se lê inclusive na primeira Carta de São João, o qual deixou claro: “Nós vimos e atestamos que o Pai enviou o Filho, Salvador do mundo. Quem confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus está nele e ele em Deus” (1 Jo 4, 14-16). Eis aí uma repercussão do primeiro momento em que Cristo pela boca de Pedro foi reconhecido autenticamente, verdadeiramente e publicamente como a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Através dos tempos tal a missão do seguidor de Cristo anunciá-lo, imitando-o em tudo. As palavras de Jesus foram claras: “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração”. Não se trata de realizar grandes coisas, notáveis projetos, mas, sim, de demonstrar uma vida que reflete o Mestre divino. É que o cristão faz de maneira extraordinária as tarefas ordinárias da sua existência. Eis aí a originalidade do discípulo de Cristo que não o leva a singularizar em nada no modo de se vestir, de se alimentar, nos seus gestos ou maneira de falar. Tudo, porém, evocando a cada ato o modo de ser do Mestre divino. Então o verdadeiro discípulo de Cristo não desanima diante de suas fraquezas e nem se preocupa com proezas espirituais. Não pensa em ser um herói. Sabe, contudo, discernir quais são os lugares que precisam de seus esforços, de sua mensagem verbal ou não verbal, de sua pressença amiga. É no cerne das próprias ambiguidades e debilidades que se há de revelar como é bom servir o Senhor. O essencial é que Cristo, o Filho de Deus, esteja continuamente presente, enfronhando todas as ações. Nisto que é que consiste a total consagração a Ele. O cristão pode estar ocupado no trabalho, no estudo, no lazer, mas o fundo de seu espírito, o íntimo de seu coração estão sedimentados no Mestre divino. Deste modo, as dificuldades da trajetória nesta terra são vencidas, dado que em todas as ocasiões a graça redentora do Filho de Deus ilumina, sustenta, clarifica. Assim, nada acontece a quem é lhe fiel, inteiramente dedicado à glória divina e o mundo pode reconhecer que Jesus é verdadeiramente o Filho de Deus. Eis a tarefa de todo batizado.

* Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.


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