“Há mais alegria em doar do que receber”, lembra padre José Sena

11/10/2017 às 12h17

Sensibilizar e despertar vocações missionárias são alguns dos objetivo da Campanha Missionária organizada pelas Pontifícias Obras Missionárias (POM) em todo o país. Para conhecer mais sobre a realidade de um missionário e os desafios vividos, o Departamento Arquidiocesano de Comunicação (DACOM) conversou com o padre José de Souza Sena, que esteve em missão na diocese de Coroatá, no estado do Maranhão (MA), durante um ano e meio.

DACOM: Para onde e quanto tempo o senhor ficou em missão?

Padre José Sena: Estive na Diocese de Coroatá, trabalhado em duas cidades chamadas Miranda do Norte e Matões do Norte, no período de fevereiro de 2016 a agosto de 2017. Portanto, foi uma permanência de um ano e meio. Aproveito para expressar minha satisfação de poder falar com os leitores do nosso site. Também quero aproveitar este espaço para agradecer ao Dom Geraldo pela oportunidade que me deu, ao Dom Sebastião que me acolheu e ao padre Luiz Faustino que me tolerou nesta parceria na missão.

DACOM: O que motivou o senhor a ir em missão?

Padre José Sena: Padre Luiz Faustino e eu trabalhávamos na paróquia de São João Batista, em Barão de Cocais. Padre Luiz Faustino recebeu um convite para trabalhar na Diocese de Coroatá, mas antes de dar sua resposta ao Dom Sebastião Bandeira Coelho, ele me indagou se eu aceitaria ir com ele para dar um apoio. Não pensei duas vezes. Há muito tempo já tinha vontade de fazer uma experiência pastoral em outra Diocese. Simplesmente respondi: se eu for aprovado para esta tarefa eu irei, ao menos, por um ano. Recebendo a aprovação de Dom Geraldo e o convite do Dom Sebastião, eu fui e acabei ficando por lá mais do que havia prometido. Pedi para voltar, exatamente porque concluí que eu já estava muito apegado aquele povo tão sofrido. Quanto mais eu ficasse lá, maior seria a minha dificuldade para retornar.

DACOM: Conte um pouco da realidade encontrada e dos desafios vividos durante sua experiência missionária.

Padre José Sena: De maneira geral, o Estado do Maranhão é muito empobrecido. Os grandes latifundiários apossaram da terra para explorar do solo, de acordo com seus interesses, sem levar em conta os mais pobres que tiveram que ficar com os restos. Para agravar mais a situação, os políticos conduzem o povo em rédeas curtas. É um coronelismo praticado ao vivo e à cores. Não se sentem ameaçados por ninguém. É um estado sem lei. Pelo menos pude comprovar isto por onde trabalhei. Diante disto, muitos se acomodaram e ficam esperando o tempo das campanhas políticas para poderem começar ou dar continuidade aos seus pequenos projetos. Para os mais empobrecidos, é o tempo para dar uma arrumada nas casas ou iniciar uma construção. Há muitos assentamentos de famílias em terrenos do INCRA ou em terras ocupadas. Cresceu entre os pobres, principalmente, uma cultura da acomodação. Nestas áreas, boa parte dos habitantes constrói suas casas, usando no lugar das colunas, madeiras roliças fincadas ao solo. O arripamento é todo feito de talo das folhas do coco do babaçu e as paredes rebocadas com o barro. Esta morada, em menos de uma semana, fica pronta para receber a cobertura das folhas deste mesmo coco ou simplesmente uma lona plástica. Assim fica concluída o que chamam de casa de taipa.

Quanto à alimentação, o que se pode esperar? O alimento básico é a mandioca. Dela se extrai o que é suficiente para o bolo, tapioca e etc. O processo de aproveitamento desta raiz é também muito primitivo e sacrificado. A pesca e a caça tem sido outra fonte de alimentação. Podem transitar pela rua e pelas estradas até com armas de fogo em busca da caça, sem nenhuma dificuldade, por causa da deficiente fiscalização. A abordagem desta natureza é rara. Inclusive, uns fazem desta prática o seu meio de vida, andando a pés ou por meio de pequenos transportes a longas distâncias. Com tudo mais facilitado, de maneira pouco clandestina, é possível encontrar carnes de animais que deveriam receber proteção ambiental. Os que tem maiores recursos constroem seus açudes para bebedouros do gado e servem deles também para a criação dos peixes. Os mais pobres vão longe na busca das pescarias por falta de rio, falta de Igarapé e de propriedades com tamanhos suficientes que pudessem construir seus açudes. Com isto você percebe que não existe água de boa qualidade. Os que tem melhores condições de vida, furam um poço na sua propriedade, outros esperam pela boa vontade da prefeitura para abastecimento de suas caixas ou buscam água, mesmo contaminada, em poços públicos.

O saneamento básico, é precário. Não há coleta adequada do lixo e nem os cidadãos estão habituados a colocar o lixo no lugar certo. Não existe aterro sanitário em muitas cidades e nem um Igarapé, como já foi dito acima, na cidade de Miranda. A água aparece com certa fartura somente na época das chuvas. Esgoto? Quase tudo que se lava dos mais variados ambientes rola pela rua e com muita lentidão por causa do nivelamento. Tudo é plano. Não existem morros. Muitas vezes, a limpeza de alguns lugares ficam por conta dos urubus, cães, jumentos, gatos, cabritos, gatos e aves domésticas que transitam pelo meio da população sem nenhum constrangimento. É assim também que eles sobrevivem. Deste modo, os leitores deste matéria podem perceber como que a higiene fica comprometida dentro desta pequena amostra da realidade aqui apresentada. É necessário muito esforço para se manter a qualidade da saúde. Diante desta exposição, as consequências pastorais são facilmente perceptíveis. Muitos fazem suas próprias leis, a partir de suas conveniências. Um exemplo claro se dá no trânsito. É comum se deparar com veículos, em geral transitando pela contramão. Outra hora, as motos com 4 ou até 5 passageiros e sem o uso do capacete. Este comportamento se transporta para o corpo eclesial. Existe pouco sentimento de pertença à Igreja. Pouca consciência de que a ela se deve obedecer, ou pelo menos, se deve ouvir o que ela diz. Perante a compra de votos tão descaradamente praticada e com tantos eleitores corruptos à disposição dos políticos corruptores, é muito difícil para a Igreja conscientizar. Não sei quando os trabalhos de conscientização da Igreja terão um resultado visível e eficaz. É um desafio constante. Todas as vezes que convocamos o povo para um ato púbico, para um protesto ou reivindicação não tínhamos sucessos. O povo concorda que seja feito, mas não comparece. Tem medo de perder os privilégios ou benefícios que já consideram garantidos. Os que organizam estes tipos de eventos ficam sozinhos na rua. Se aqui em nossa diocese, às vezes, reclamamos da fraca expressão de nossas pastorais e movimentos sociais, para aquelas bandas de lá a situação está bem pior.

Por fim, um desafio que se faz presente nas pastorais, em geral, é a dificuldade para a preparação das lideranças. O índice de semianalfabetos é muito alto e é com eles que temos muitas vezes que contar. A maioria das famílias vem de casamentos irregulares. Parece que esta é uma das razões dos casais ficarem mais retraídos com relação às pastorais e mais ainda com dificuldades de participação nas celebrações eucarísticas. Sem comentários a mais, as cidades que conheci no estado do Maranhão, tem uma presença maior de não católicos. Por esta razão, na minha forma de ver, até as procissões e outras festividades que aqui estamos acostumados com presença maciça popular, lá são momentos esvaziados, com raras exceções. O catolicismo visivelmente, nem nestas horas, é mais da maioria.

DACOM: Como a experiência missionária pode colaborar para o exercício do ministério presbiteral?

Padre José Sena: Creio que toda as vezes que alguém tem a oportunidade de conhecer outras realidades mais distantes de si mesmo, cresce mais a possibilidade de ver melhor o chão que está pisando. A realidade desconhecida é mais exigente e o que se aprende neste esforço de se adaptar ao estranho, nos estimula a nos dedicar mais ao que nos é rotineiro. Creio também que é válido estar atento para não cair na acomodação e pensa assim. Lá está tão ruim. O que eu fizer aqui, estará bom demais.

DACOM: Como o senhor avalia os desafios da Missão na atualidade?

Padre José Sena: Cada dia aumenta mais a competitividade entre as Igrejas cristãs. Para sustentar este ritmo, cada uma investe o que pode e o que não pode, lançando mão até de recursos ilícitos. Do jeito deles, os líderes são muitos e muito treinados, pois encaram o que deveria ser um ministério, como profissão. Abraçam uma profissão e ficam longe da vocação. A vantagem é que trabalham com mais garra. Para nós católicos, as frentes de trabalhos estão cada vez mais aumentando e nossos líderes diminuindo e se cansando. Talvez esteja nos faltando um tato maior para chegar ao coração dos que podem e querem servir. Vemos pouca disposição da parte de alguns leigos que se esmorecem e outros que estão muito sobrecarregados por estarem reduzidos na quantidade. Com muito peso não tem como caminhar. Outra situação é a pouca qualidade de alguns que não se prepararam o suficiente na pressa de entrar em campo pastoral, pois não dá para esperar. A necessidade é grande. O perigo destes últimos é de se cansarem mais depressa. Estes são alguns dos muitos desafios que enfrentamos.

Dacom: A Campanha Missionária deste ano tem como tema “A alegria do Evangelho para uma Igreja em saída”. Como é ser esse missionária da alegria na Igreja em saída?

Padre José Sena: Penso que ao sair de uma realidade física, estamos saindo também de nós mesmos. Esta atitude de quem se desinstala pode se revestir de preocupações e até de certa tristeza, quando o esforço para sair é maior do que o de para ficar. Para a sociedade, a acomodação é quase sinônimo de paz e de felicidade, mas quem dá passos na fé, experimenta a alegria de maneira muito diferente. Não podemos perder de vista a ideia de que esta inquietação nos traz desconforto no momento de partir, mas poderá ser, e quase sempre é, a devolução da alegria que outros haviam perdido. Nestas hora nos enxergamos no Jesus da estrada, no Cristo caminheiro. Vemos Deus em nós, indo aos outros. Vale terminar esta resposta com a afirmação do Mestre. Ha mais alegria em doar do que receber.

Dacom: O senhor acha que conseguimos colocar em prática a Igreja em saída que o papa Francisco tanto defende?

Padre José Sena: Todos compreendemos que este desejo é do próprio Jesus. Ele recomendou aos seus para que saíssem pelo mundo inteiro. Daí entendermos que o Papa Francisco está nos relembrando com muito entusiasmo o que Jesus já pediu. De muitas formas no passado, tantos realizaram o desejo que passou pelo coração de Jesus. Outros estão fazendo o mesmo e muitos ainda o farão. Não podemos nos cansar, como se não houvesse mais nada para fazer. Para cada tempo Deus nos capacitará pelo seu Espírito para sermos mais eficientes na missão que nos confia. E se algum dia tivermos orgulho ou vaidade, a ponto de de ficarmos convencidos de ter feito muito, é bom voltar atrás e lembrar da lição que nos foi dada. Somos servos inúteis. Fizemos o que devíamos fazer.


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