Dai a César o que é de César, a Deus o que é de Deus

23/10/2017 às 08h39

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

A resposta que Jesus deu aos fariseus e herodianos é uma das sentenças mais conhecidas dos cristãos: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é Deus” (Mt 22,15-21). Este ensinamento impregnou o pensamento dos cristãos, tornando-se até popular. É preciso, contudo, penetrar fundo nesta lição do Mestre divino. Seu objetivo não foi simplesmente colocar um divisor entre o temporal e o espiritual. Não foi também seu objetivo justificar os que erroneamente querem colocar as práticas religiosas apenas na esfera privada, pessoal. O que Jesus disse deve ser interpretado num contexto bíblico mais amplo para se pinçar e compreender o seu significado profundo. Levantaram uma questão para tentar colocar Jesus numa situação embaraçosa, mas a eles não interessava a verdade e foram, por isto mesmo, chamados por Cristo de hipócritas. Pagar o imposto romano já era em si reconhecer, de certo modo, a legitimidade de uma ocupação invasora e para a fé judaica a única aplicável em Israel devia ser a lei de Deus. Assim sendo, se Jesus lhes respondesse que era preciso pagar o imposto a César, Ele se fazia colaborador dos romanos. Se Ele respondesse que não era preciso pagar o importo, os fariseus poderiam denunciá-lo por rebelião contra as autoridades que dominavam o país. Jesus estaria inclusive impulsionando os judeus à revolta. Aliás, mais tarde, diante de Pilatos para complicar Cristo no julgamento haveriam de dizer que Jesus era inimigo do Imperador. Deste modo, ao interrogar Jesus pensaram em colocá-lo numa cilada sem saída. Com sua sabedoria, Cristo lhes manda que mostrem uma peça do dinheiro romano, sinal por excelência do poder político do dominador. Portanto, ao pagar o imposto os judeus aceitavam o jogo econômico de Roma. Isto era uma visível incoerência, mas não tinham como escapar do domínio ao qual estavam submetidos. Eis porque Jesus lhes disse “Dai a César o que é de César”. Entretanto, o Mestre divino foi mais longe ao acrescentar “Dai a Deus o que é de Deus”. Ele focalizava uma dimensão espiritual e lançava uma lição. Ele perguntou de quem era a imagem que estava na moeda. Era de César, assim dê a ele o que lhe pertence. Ao se referir, porém, naquele momento também a Deus, Cristo lembrava outra imagem. Esta se achava no livro do Gênesis: “Deus criou o homem à sua imagem, criou-o à imagem de Deus, e criou-os homem e mulher” (Gên 1,27). Jesus sabiamente levou seus interlocutores a outra realidade, mas importante do que o dinheiro de César, qual seja a vivência da imagem de Deus na vida de cada um, a submissão total ao Criador. Era um ensinamento universal. O homem, é certo, tem que se adaptar aos fatos materiais e políticos para poder viver em sociedade. Entretanto, não pode o ser racional descurar as exigências de sua vida espiritual. Precisa dar a Deus o que é de Deus cuja autoridade é bem mais doce e suportável do que a dos homens. O próprio Jesus afirmou: “O meu jugo é suave, o meu fardo é leve” (Mt 11,30). Muitas vezes se esquece facilmente da presença discreta e amável de Deus que habita nos corações dos que O amam e respeitam, Dar a Deus o que é de Deus é estar sempre intimamente unido a Ele a quem se deve total submissão na vida cotidiana. Criados à imagem e semelhança de Deus, o homem e a mulher devem ser uma oferenda contínua a Ele pelas preces e pelo empenho na evangelização. Os fariseus e herodianos traziam à baila a questão material do imposto a ser pago ao Imperador, mas Jesus lhes lembra algo muito mais importante que é o aspecto espiritual que engrandece a criatura perante seu Criador. Como cidadãos temos que cumprir os nossos deveres para com o Estado. Como criaturas devemos estar sempre cônscios de nossas obrigações para com Deus. Ao poder civil a cada instante cada um paga taxas altíssimas, dinheiro quase sempre mal empregado por muitos políticos. Deus, porém, não procura nada a não ser uma amizade real e sincera com Ele através de orações fervorosas. Além dito, quando o cristão se coloca ao serviço do próximo na família ou na sua comunidade é a Deus que ele está servindo, a Ele que a cada um, continuamente, cumula com tantas graças e benefícios. Cumpre assim uma imersão total no mistério de Deus. O dinamismo cultural da fé cristã leva discípulo de Jesus a lidar com as coisas materiais, priorizando, porém, as realidades espirituais.

* Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.


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