Fundamentação Bíblica e Teológica para os Ministérios dos Cristãos Leigos e Leigas na Arquidiocese de Mariana

17/11/2017 às 08h26

O termo ministério vem do latim ministerium e pode ser traduzido como serviço. A Igreja é ministerial e os ministérios eclesiais são serviços comunitários (Rm 12,4-5), suscitados pelo Espírito Santo (1 Cor 12,11) para a edificação do Corpo de Cristo (Ef 4,4-6). A Igreja é chamada a viver a sua missão no seguimento de Jesus Cristo que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate de todos” (Mc 10,45). A Igreja, “povo congregado na unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (LG 4), existe para o Reino de Deus, como “sacramento universal da salvação” (GS 45). A missão tem a sua origem no Pai que envia ao mundo o seu Filho e o Espírito Santo. A missão da Igreja está a serviço do Reino de Deus, que começa na história e se consuma na eternidade.

O Povo de Deus é dotado pelo Espírito Santo, protagonista da missão na história, de carismas, serviços e ministérios diversificados. Em primeiro lugar está a atuação do Espírito Santo na comunidade de fé para a missão, mas está presente também o empenho humano para encontrar as melhores formas de promover a evangelização, a comunhão, a participação e o atendimento das necessidades das comunidades eclesiais e da missão.

Há forte relação entre carisma e serviço/ministério no Novo Testamento: 1 Cor 12,4-11.28-30; Rm 12,4-8; Ef 4,10-13; 1 Pd 4,10; 2 Tm 1,6. O ministério é entendido hoje como o carisma que assume a forma de serviço à comunidade e à sua missão no mundo e na Igreja e que, por esta, é como tal acolhido e reconhecido (CNBB, Missão e Ministérios dos Cristãos Leigos e Leigas, n. 83, Documento 62). Todo carisma tem a dimensão de serviço, mas nem todo carisma é ministério. Deve ser considerado ministério o carisma que assume a forma de serviço bem determinado e que venha ao encontro das exigências permanentes da comunidade e da missão, com uma responsabilidade estável e reconhecido pela comunidade eclesial (cf. CNBB, Documento 62, n. 85). O ministério representa uma atuação pública e oficial da Igreja, comportando modalidades e graus diversos.

Os ministérios podem ser classificados como:

1 – ministérios “reconhecidos”, sem formalidade canônica;

2 – ministérios “confiados”, conferidos por algum gesto litúrgico ou forma canônica, como, por exemplo, ministros da Sagrada Comunhão, da Palavra ou do Batismo;

3 – ministérios instituídos, conferidos pela Igreja através do rito litúrgico conhecido por “instituição”, na Igreja latina são os ministérios de Leitor e Acólito;

4 – ministérios ordenados, conferidos através do Sacramento da Ordem: diaconado, presbiterado, episcopado.

Embora os ministérios instituídos tenham fornecido o modelo para a criação de outros ministérios, na prática eclesial têm-se optado por ministérios confiados e reconhecidos, não se excluindo a possibilidade de ministérios instituídos dentro de um projeto diocesano que valorize os ministérios leigos nas comunidades.

Há ministérios leigos que são considerados como de suplência, numa referência ao ministério ordenado. Do ponto de vista teológico, essa designação e compreensão podem ser questionadas, pois se os sacramentos de iniciação cristã habilitam o leigo ou a leiga a exercerem as ações próprias de tal ministério, não pode ser mera suplência do ministério ordenado, mas algo que pertence potencialmente à identidade do povo sacerdotal, profético e servidor, ou seja, ao sacerdócio comum dos fiéis.

Questão delicada e que deve ser aprofundada é a distinção entre ministérios voltados para a vida interna da Igreja e os que dizem respeito à missão da Igreja no mundo. Compreendendo a Igreja como sacramento universal de salvação e libertação do ser humano em todas as suas dimensões e de todos os seres humanos sem exclusão, tal distinção tende a desaparecer e deveríamos considerar que todos os ministérios são na Igreja e para a Igreja, a serviço do Reino de Deus. Os ministérios também não se limitariam a determinadas áreas da missão eclesial, excluindo, por exemplo, as pastorais sociais. Necessariamente, não teríamos que reservar o termo ministérios para determinadas áreas e a expressão serviços para outras. A distinção entre serviço cristão e ministério é de outra ordem. Diz respeito à representatividade oficial da Igreja naquela função e ao vínculo do representante com as autoridades eclesiais. O ministério é sempre um agir eclesial, isto é, representativo, público, oficial. Os serviços cristãos pertencem à ordem do testemunho cristão e não devem ser considerados inferiores aos ministérios na sua dignidade e importância, apenas distintos em sua natureza.

Devemos sempre lembrar a incisiva afirmação do Beato Papa Paulo VI na Evangelii Nuntiandi a propósito da prioridade da missão do leigo no mundo: “O campo próprio da sua atividade evangelizadora é o mesmo mundo vasto e complicado da política, da realidade social e da economia, como também o da cultura, das ciências e das artes, dos “mass media” e, ainda outras realidades abertas para a evangelização, como sejam o amor, a família, a educação das crianças e dos adolescentes, o trabalho profissional e o sofrimento” (EN 70).

O Documento de Aparecida, por sua vez, retoma a questão e incentiva os ministérios leigos: “Os leigos também são chamados a participar na ação pastoral da Igreja, primeiro com o testemunho de vida e, em segundo lugar, com ações no campo da evangelização, da vida litúrgica e outras formas de apostolado, segundo as necessidades locais sob a guia de seus pastores. Estes estarão dispostos a abrir para eles espaços de participação e confiar-lhes ministérios e responsabilidades em uma Igreja onde todos vivam de maneira responsável seu compromisso cristão” (DAp, n.211). O Documento de Aparecida menciona “ministérios confiados aos leigos e outros serviços pastorais, como ministros da Palavra, animadores de assembleias e de pequenas comunidades, entre elas as comunidades eclesiais de base, os movimentos eclesiais e um grande número de pastorais específicas” (DAp. n.99c).

O Papa Francisco aponta para o crescimento da consciência da identidade e da missão dos leigos na Igreja (cf. EG 102) e do protagonismo dos batizados como discípulos missionários no anúncio jubiloso do Evangelho (cf. EG 120), destacando o lugar privilegiado dos pobres no povo de Deus e expressando o seu desejo de uma Igreja pobre para os pobres (cf. EG 197 e 198). O mesmo Papa Francisco acaba de instituir o Dia Mundial dos Pobres. Não deveríamos pensar em ministérios e serviços que expressem a opção pelos pobres em nossas comunidades eclesiais?

Temos um campo aberto para a participação responsável e criativa dos cristãos leigos e leigas na missão da Igreja como reconhece o Documento 105 da CNBB: “Enfim, não é mais possível pensar uma Igreja que não incentive a participação e a corresponsabilidade dos cristãos leigos e leigas na missão. ‘O empenho para que haja a participação de todos nos destinos da comunidade supõe reconhecer a diversidade de carismas, serviços e ministérios dos leigos’. Estes devem ser reconhecidos e valorizados, não somente nas equipes de liturgia e de catequese, mas também no ministério teológico, nas coordenações, assembleias de planejamento, conselhos pastorais, e econômicos e outras instâncias de decisão, tendo em vista a missão comum em favor do Reino de Deus. Os planos pastorais diocesanos e paroquiais devem ser pensados, formulados e executados de modo inclusivo e criativo” (CNBB. Doc. 105, n.160).

O Projeto Arquidiocesano de Evangelização (2016 – 2020) aponta para o reconhecimento e valorização dos ministérios confiados aos leigos, os desafios atuais e o horizonte de esperança que pode ser vislumbrado (cf. PAE, n.47 e n.88), em comunhão com as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2015 – 2019 (CNBB, DGAE, 107). Importa agora trilhar esse caminho na força do Espírito Santo, acolhendo a palavra da Mãe da Igreja: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5).

Cônego Lauro Sérgio Versiani Barbosa

Pároco da Paróquia de Nossa Senhora do Rosário de Fátima em Viçosa

Vigário Episcopal na Região Pastoral Mariana Leste


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