Arrependimento e Fé

15/01/2018 às 09h02

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Solene a declaração de São João Batista: “Completou-se o tempo e está próximo o reino de Deus. Fazei penitência e crede na boa nova” (Mc 1,14-20). O ministério de Jesus iria se iniciar na Galileia. Ele passaria ao longo do mar e transformaria profissionais da pesca em pescadores de homens, a fim de trazer muitos para o Reino de Deus. Eles não empregariam mais as redes, mas pelas palavras se tornariam os anunciadores do evangelho da salvação eterna. Isto através da conversão e da crença inabalável na mensagem do Filho de Deus. Da aceitação livre do Evangelho resultaria o acesso a uma verdadeira vida, fruto do dom da fé. Chamados por Cristo, aqueles pescadores deixaram suas redes e passaram a oferecer aos outros os caminhos da salvação. Deixaram um magnífico exemplo, pois com a urgência da proximidade do Reino de Deus largaram seu modo de vida e seguiram Jesus que os convidara: “Vinde após mim”. Através dos tempos os cristãos compreenderam tal lição e, abandonando hábitos mundanos, pela voz e pelo testemunho de vida passaram a proclamar o Evangelho. É que crer nesta Boa Nova é se deixar transformar por ela, permitindo que ela inspire e respire no cotidiano do autêntico seguidor de Cristo. Este veio a este mundo para fazer surgir uma humanidade reunida pela Palavra. O povo de Deus caminharia sustentado por ela. Uma multidão de remidos composta de pobres e ricos, homens e mulheres de todas as classes sociais, pois para todos há um lugar no Reino que Jesus viera estabelecer nesta terra. Daí a instalação de uma fraternidade universal, pois todos seriam chamados a construir juntos novas relações, outra maneira de viver, marchando unidos rumo ao Reino eterno. Todos iguais nesta sublime missão num programa de ação contínua. A sua Igreja seria a reunião de todos aqueles que aceitassem segui-lo, vivendo segundo esta Boa Nova por Ele anunciada. Sua mensagem seria bombardeada século após século pelas forças do mal, mas transcenderia as invectivas daqueles que a combateriam. Os que pertencem ao Reino de Deus nunca haveriam de desfalecer. Este Reino sofreria violência, visando impedir sua irradiação, mas a vitória seria possível pela graça divina. São Paulo diria aos Coríntios: “Somos afligidos de todos os lados, mas não vencidos pela angústia; postos entre os maiores apuros, mas sem perder a esperança; perseguidos, mas não desamparados; derrubados, mas não aniquilados” (2 Cor 4, 8-10). Aqui na terra o Reino de Deus oferece um tempo intermediário, é o tempo do testemunho cristão. da Igreja peregrina. No final deste tempo o reino chegará à plenitude. Será a consumação da Páscoa do Senhor, quando haverá a refeição escatológica. Nela estarão os convidados, vindos de todas as partes com os patriarcas e todos os que perseveraram no bem. Eis aí então a herança de todos os fiéis. Até lá é preciso repetir sempre: “Venha a nós o vosso Reino”. O que não pode então ser esquecido é este Reino é o dom de Deus por excelência, um valor essencial que deve ser corajosamente adquirido. Donde o afastamento radical de todas as influências maléficas dos meios de comunicação social, na fuga destemida de tudo que coloca em risco a perda de tesouro tão precioso. Há condições para pertencer ao Reino e não o perder nunca. Tudo é graça divina e supõe uma correspondência à mesma, mesmo porque os pecadores endurecidos no erro não chegarão à sua posse definitiva. O apego às realidades sobrenaturais; a prática da justiça; o estar no mundo, mas não sendo do mundo; o cumprimento exato dos deveres familiares, profissionais, comunitários, a caridade fraterna são elementos primordiais para o triunfo do seguidor de Cristo. Nem se pode esquecer que a veste nupcial da graça santificante é indispensável para se viver no Reino aqui e na eternidade. Daí ser mister uma conversão contínua, porque na vida espiritual qualquer regresso ocasiona terríveis consequências. Disto se deduz que o fiel vive numa ininterrupta vigilância, cauteloso em todas as circunstâncias. Olhos fixos na chegada um dia ao Reino dos céus, os discípulos de Jesus já se sentem chamados a partilhas da glória desse reinado eterno, pois desde aqui na terra Jesus fez deles “um reino de sacerdotes para seu Deus e Pai” (Ap 1,6).

* Professor no Seminário de Mariana durame 40 anos.


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