Fé e Razão

09/02/2018 às 08h43

O tema Fé e Razão possui uma atualidade permanente e merece ser debatido e aprofundado continuamente. Diz respeito à própria origem da chamada civilização ocidental. Há uma vasta e rica bibliografia a propósito. Segundo a Carta Apostólica Fides et Ratio de São João Paulo II, a maior referência magisterial recente sobre o assunto: “A Fé e a Razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio (cf. Ex 33,18; Sl 27/26,8-9; Sl 63/62,2-3; Jo 14,8; 1Jo 3,2).” Originalmente razão e fé não se opunham e deveríamos antes falar de duas grandezas simbólicas comparáveis, podendo-se apresentar em diálogo como razões da Fé e razões da Razão, como mostra admiravelmente o filósofo jesuíta Pe. Henrique Cláudio de Lima Vaz (cf. Metafísica e Fé Cristã, in Síntese 86, 1999). No horizonte de uma cultura racionalista, fé e razão se opõem. Na verdade, o racionalismo reduz a razão à forma de “razão instrumental”, de caráter “técnico-científico”.

Em seu famoso opúsculo Resposta à Pergunta: Que é o Esclarecimento?, Kant1 define o projeto da Ilustração (razão moderna) a partir de dois vetores básicos: posição crítica em relação à tradição e a autoridade e comprometimento com o interesse emancipatório do homem. Sair do estado de menoridade é recusar as tutelas e afirmar-se como capaz de pensar e se conduzir autonomamente. Há uma relação indispensável entre esclarecimento e liberdade. Kant não advoga o individualismo ao defender a autonomia, mas insiste na liberdade de se fazer um uso público da razão em todas as questões. Aponta para a busca do consenso obtido pelo trabalho de uma razão crítica. Todas as pessoas e épocas têm direito a esse exercício, ao esclarecimento. O problema é que Kant estabeleceu uma cisão ao recusar a metafísica no nível da razão pura e aceitá-la só no nível da razão prática. O idealismo alemão rejeitou a solução kantiana e tentou uma reconstrução sistemática da metafísica nas modalidades de Fichte, Schelling e Hegel. Mas a partir do século XIX a posição crítica em relação à metafísica foi radicalizada.

Os “enciclopedistas franceses”, Nietzsche, Adorno, Horkheimer e, no Brasil, o ensaísta Sérgio Paulo Rouanet2, compreendem a “Ilustração” do século XVIII como parte (para alguns privilegiada) de uma “família espiritual” batizada como “corrente iluminista”, com raízes na Antigüidade, passando pela Renascença, para chegar até Marx, Freud, Adorno, Michel Foucault, Habermas e outros. O “iluminismo” seria uma tendência intelectual “trans-epocal” que combate o mito e o poder a partir da razão.

Na Dialética do Esclarecimento3, Adorno e Horkheimer observam uma dialética no iluminismo: “o mito já é esclarecimento e o esclarecimento acaba por reverter à mitologia”4. O iluminismo nasce de uma ruptura com a natureza, no sentido de dominá-la, dando início a um incessante trabalho da razão que combate todo pensamento que contém traços de sua pré-história. Assim o animismo é criticado pelo mito, o mito pela metafísica, a metafísica pela ciência matematizada. Atualmente o iluminismo absolutiza a ciência como única forma de verdade. E a razão instrumental, própria do iluminismo e fruto da luta contra a magia e o mito, transforma-se em mito. Observa-se em todo o processo, desde o seu início, um uso redutor da razão a par do “progresso” alcançado.

Segundo Clodovis Boff em sua Teoria do Método Teológico a razão moderna só admite duas funções: demonstrativa (argumentos necessários, como na matemática e na lógica silogística) e científica empírico-formal5. Embora a “razão moderna” esteja em crise, como demonstram discussões epistemológicas6, pesquisas neurológicas7, pensamento pós-moderno8, ainda é hegemônica, sendo necessária uma ampliação da idéia de razão. Além da razão formal (lógica) e empírico-formal (científica) existe a razão discursiva em geral e que pode ser denominada “razão crítica” em sentido amplo porque busca o sentido das coisas e revista tudo. Abarca desde a razão simples e direta do cotidiano (o “bom senso”) até a “razão hermenêutica” utilizada pelas ciências humanas (também para estas, o racionalismo hegemônico produz uma certa hesitação epistemológica). Alargando-se o conceito de razão, supera-se o racionalismo científico estreito, conhecido como “cientificismo”9. Mas é preciso ir além e superar toda forma de racionalismo. É preciso considerar a “razão intuitiva”(noûs para os gregos, intellectus para os latinos). Em linguagem atual se pode chamar essa “razão intuitiva” de “pensamento”, “mente” ou “espírito” e até mesmo “consciência”. O noûs é intuição, percepção, apreensão do ser, contemplação e saber imediato da verdade. Na medida em que é abertura-ao-mundo, é coextensivo ao ser humano. O conhecimento que proporciona é atemático, isto é, supraconceitual e supraconsciente10. É justamente através do noûs que se pode chegar ao mistério do Ser, a uma contemplação amorosa da Realidade. O noûs é, no dizer de Heidegger, o pensamento que deixa o Ser ser Ser (das Sein seinlassen)11. Entram em cena as “razões do coração” de que fala Pascal (Pensées, 277). O nôus ou intellectus é o princípio e fundamento do pensar, é o pensamento pensante. É a fonte da ratio (pensamento pensado).

O pensamento cristão em geral, seja na perspectiva do platonismo cristão ou do aristotelismo cristão, com os seus expoentes maiores, respectivamente Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino, seja na vertente mais contemporânea, sempre cultivou uma visão ampla e positiva da razão, uma razão amiga da fé e da vida. Talvez a problemática mais dramática de nossa época seja a questão do sentido diante do vazio do niilismo metafísico e ético característico do imanentismo antropocêntrico e expresso no relativismo difundido no mundo contemporâneo. Sem dúvida nós podemos constatar dois problemas gravíssimos no mundo à nossa volta: a fome decorrente da miséria e das injustiças sociais e a violência, muitas vezes carregada de um ódio disseminado e que explode em atos de terror. Mas o eixo da crise epocal passa pela questão do sentido. E a questão do sentido deve ser enfrentada com a razão e com a fé.

A fé cristã contempla o Logos que se fez carne e habitou entre nós (cf. Jo 1,14). Podemos dizer que o cristianismo é uma família espiritual trans-epocal que combate o mito e o poder através da emergência de Deus transcendente na experiência cultural por meio da kénosis de seu Filho Unigênito, rompendo a atemporalidade do mito através da historicidade da ação. Deus se revelou em Jesus de Nazaré: na sua vida, paixão, morte e ressurreição. Mas só os simples, os que têm o coração de pobre, o percebem, como ouvimos no Evangelho: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultastes estas coisas aos sábios e doutores e as revelastes aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a que o Filho o quiser revelar” (Mt 11,25-27). Jesus é a Sabedoria em pessoa como o Filho Unigênito de Deus que assumiu a condição humana. Ele é o Logos do universo, Ele é a imagem do Deus invisível, primogênito de toda a criação...tudo foi criado por ele e para ele, ele é anterior a tudo e nele tudo tem a própria consistência (Cl 1,15.17). Jesus confere sentido à existência humana: Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14,6), Ele é o pão da vida (Jo 6,35), a luz do mundo (Jo 8,12). O Evangelho do Reino proclamado por Jesus ensina como enfrentar os grandes desafios do mundo atual que apontamos anteriormente. Diante da fome, da miséria e da injustiça ele nos ensina a partilha, a solidariedade. Diante da violência e do ódio, ele nos ensina o perdão e a reconciliação. Mas nada disso se faz só com a conduta pessoal. A fé e a caridade não dispensam a razão. O trabalho da razão é necessário para que a partilha e o perdão cheguem às comunidades, às sociedades e a todos os povos.

O Papa São João Paulo II nos ensina em sua Carta Fides et Ratio que a fé e a razão constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio. A Filosofia deve, portanto, recuperar a sua vocação primeira de busca da verdade, não se contentando com verdades parciais e provisórias, mas enfrentado as perguntas radicais sobre o sentido e o fundamento último da vida humana, pessoal e social (FR 5). O homem, por sua natureza, procura a verdade. Esta busca não se destina apenas à conquista de verdades parciais, físicas ou científicas; não busca só o verdadeiro bem em cada uma de suas decisões. Mas a sua pesquisa aponta para uma verdade superior, que seja capaz de explicar o sentido da vida; trata-se, por conseguinte, de algo que não pode desembocar senão no absoluto (FR 33).

Também o magistério do Papa Bento XVI12 insistiu na importância da razão para a fé e da fé para a razão. Para o Papa Bento XVI não agir segundo a razão é contrário à natureza de Deus. O Evangelho segundo João começa qual novo Gênesis: No princípio era o Logos (Jo1,1). Logos, lembra Bento XVI, significa ao mesmo tempo razão e palavra – uma razão que é criadora e capaz precisamente de se comunicar, mas como razão. Assim, não é por acaso que se encontraram o pensamento bíblico e o pensamento grego, terra de nascimento da filosofia. Sócrates combateu o mito com a razão. Já no Antigo Testamento a revelação de Deus a Moisés na sarça ardente contestou o mito na afirmação do “Eu Sou”. Para Bento XVI há um autêntico iluminismo que se encontra com a fé cristã. O Papa Bento XVI combate a auto-limitação da razão e defende uma razão aberta, dialogal, integral. Certamente a razão é ultrapassada pelo amor como ensina São Paulo no seguimento de Cristo, mas sempre, recorda Bento XVI, estaremos diante do amor do Deus-Logos para o qual se dirigem o culto e a práxis cristãs.

É nesse horizonte delineado que os cristãos são chamados ao exercício do pensar e do agir, iluminados pela palavra da Escritura: como eleitos de Deus, santos e amados, revesti-vos de sentimentos de compaixão de bondade, humildade, mansidão, longanimidade (...) Mas sobre tudo isso, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição. E reine nos vossos corações a paz de Cristo, à qual fostes chamados em um só corpo. E sede agradecidos. A Palavra de Cristo habite em vós ricamente: com toda a sabedoria ensinai e admoestai-vos uns aos outros e, em ação de graças a Deus, entoem vossos corações salmos, hinos e cânticos espirituais. E tudo o que fizerdes de palavra ou de ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus, por ele dando graças a Deus, o Pai (Cl 3,12.14-17).

Cônego Lauro Sérgio Versiani Barbosa

Pároco de Nossa Senhora do Rosário de Fátima – Viçosa – MG

 

1 Cf I. Kant, Resposta à Pergunta: “Que é o Esclarecimento”?, in, Id., Textos Seletos, Petrópolis 1985, 100-116.

2 Diplomata brasileiro, foi Ministro da Cultura; ensaísta, possui diversas publicações e pode ser considerado um habermasiano. Aqui a referência é: S. P. Rouanet, As Razões do Iluminismo, São Paulo 1987.

3 Cf T. W. Adorno – M. Horkheimer, Dialética do Esclarecimento, Belo Horizonte 1986.

4 T.W. Adorno – M. Horkheimer, Dialética do Esclarecimento, 15, 23 e 39.

5 Afirmava David Hume: “Se tomarmos nas mãos um volume qualquer de Teologia ou de Metafísica escolástica, por exemplo, perguntemos: ‘Este livro contém algum raciocínio abstrato sobre quantidade ou número?’ Não. ‘Contém algum raciocínio experimental sobre questões de fato ou de existência?’ Não. Para o fogo com ele, pois outra coisa não pode encerrar senão sofismas e ilusões”. D. Hume, “Investigação sobre o Entendimento Humano”, in Col. Os Pensadores 23, São Paulo 1973, 198.

6 L.C. Susin , ed., Mysterium Creationis – Um Olhar Interdisciplinar sobre o Universo, São Paulo 1999; J. Guitton – G. Bogdanov – Ig. Bogdanov, Deus e a Ciência. Em direção ao metarrealismo, Rio de Janeiro 1992; R. Weber, Diálogos com cientistas e sábios. A busca da unidade, São Paulo s.d. (orig. 1986).

7 D. Goleman, Inteligência emocional, São Paulo 1996; A. Damásio, O erro de Descartes, São Paulo 1996.

8 G. Vattimo, Credere di credere, Milano 1996; O. Maduro, Mapas para a festa. Reflexões latino-americanas sobre a crise e o conhecimento, Petrópolis 1994.

9 João Paulo II, Fides et Ratio 88.

10 Karl Rahner trata deste tipo de conhecimento transcendental proporcionado pela “originária possessão de si”, de sua relação com o saber temático ou reflexivo e das conseqüências para o conhecimento religioso. K. Rahner, Curso Fundamental da Fé, São Paulo 1989, especialmente p. 26-36.

11 M. Heidegger, Ser e Tempo – Parte I, Parágrafo 44, Petrópolis 1989, 280-300; M. Heidegger, Que é isto – a filosofia?, São Paulo 1971.

12 Cf. especialmente BENTO XVI, Fé, razão e universidade. Recordações e reflexões. Discurso na Universidade de Regensburg, 12/09/2006.


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