O roxo está aí...

20/02/2018 às 10h12

Quando era criança, uma coisa que mexia muito comigo era entrar nas igrejas, no tempo da Quaresma, e ver tudo roxo. Era costume até cobrir as imagens com um pano dessa cor. Não havia flores no templo, o ambiente ficava mais escuro, sombrio. Aquilo me falava de tristeza. Às vezes, sentia medo.

De fato, um dos sinais que marcam cada tempo litúrgico é o que chamamos de “cores litúrgicas”. E roxo é a cor da Quaresma. Até na própria natureza aumentam as flores roxas.

Hoje tenho uma visão bem diferente. “Vivendo e aprendendo...”. Aprendi e entendi que Deus não quer tristeza. E nem pede isso de ninguém. Pelo contrário: quando a gente está triste Ele vem nos confortar. Como pai e mãe que ama, Ele também quer ver seus filhos e filhas alegres, felizes. A Quaresma é tempo de crescimento espiritual, de conversão para o bem, de encontro com Deus e com os irmãos. E isso é coisa boa; não motivo de tristeza.

Aliás, pesquisando na internet, vi que “a cor roxa está ligada ao mundo místico e significa espiritualidade, magia e mistério. Estimula o contato com o lado espiritual, proporcionando a purificação do corpo e da mente, e a libertação de medos e outras inquietações. É a cor da transformação. O ambiente roxo é misterioso e místico, sendo a cor apropriada para um local de meditação”. Achei interessante! E concordo plenamente...

Porque Quaresma é tudo isso: espiritualidade acentuada, tempo de aprofundar o Mistério da vida e da Salvação, processo de purificação de tudo o que faz mal (no corpo, na mente, no coração), libertação de medos e inquietações que nos pesam e nos travam, oportunidade de transformação interna e dos nossos ambientes, tempo propício para o silêncio fecundo da meditação, experiência que nos ajuda no grande desafio do encontro com a gente mesmo, com Deus e com o outro.

A penitência de que nos fala a Igreja não é sinônimo de masoquismo, de sofrimento, mas de algo que nos faça crescer. O jejum e a abstinência não devem ser vistos como fardo pesado, sem sentido, mas como algo que nos mostra a grande importância da falta. Sim, a falta faz falta no processo de crescimento. A pessoa que tem tudo não amadurece. Até porque nada nos satisfaz plenamente. E ainda bem que é assim. A fome, a sede, o desejo, o sonho, isso tudo é que nos move, nos motiva, nos impulsiona. A falta nos ajuda a valorizar o que temos e a perceber o sofrimento de quem não tem nem o estritamente necessário para viver ou sobreviver; nos faz mais solidários e sensíveis.

Fica aí o recado: a Quaresma não quer ser um tempo de tristeza e de sacrifícios vazios. É tempo de construção, de crescimento, de amadurecimento na fé e na fraternidade. Tempo de valorizar a falta (silêncio, jejum, abstinência) para buscar algo que nos preencha verdadeiramente. Tempo de olhar menos coisas fora, para olhar dentro, para nós mesmos. Porque quem não se encontra não irá encontrar o outro. Quem não se ama não conseguirá amar o outro. E quem não consegue encontrar a si mesmo e o próximo, dificilmente encontrará Deus.

Pe. José Antonio de Oliveira


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