O templo de Deus

26/02/2018 às 11h22

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

O episódio da expulsão dos vendilhões do templo de Jerusalém feita com veemência por Jesus deixa clara a importância da Casa de Deus (Jo 2,13-25). É que o templo é o local onde de modo especial se depara a divindade. Aí se dá o misterioso reencontro entre o Criador e suas criaturas. O homem se aproxima de seu Senhor e este se torna mais próximo ainda do ser humano. Aí se penetra nos arcanos da ciência de Deus. Assim sendo, compreende-se a severidade de Cristo perante aqueles que profanavam o lugar sagrado, transformando em casa de negócios um espaço destinado à prece. Alí Deus acolhia os que O temiam e amavam para cumulá-los de bens espirituais. Era o recinto para se cantar a glória do Ser Supremo. O Filho de Deus contemplou o bulício dos cambistas e demais mercadores, um tumulto que destoava do silêncio necessário à tertúlia com Deus Reinava a idolatria do dinheiro e ganância humana prevalecia sobre as aspirações sobrenaturais. O zelo pela Casa do Pai inflamou o coração do Redentor e com um chicote nas mãos Ele expulsou os profanadores da morada divina. Bois, ovelhas e pombas também foram afastados e seus donos interpelaram o audacioso Galileu que assim procedia. A resposta inesperada de Jesus se referia então não ao templo material, mas ao templo de seu corpo. Ele responde aos judeus predizendo sua futura ressurreição: “Destruí este templo e eu em três dias o farei ressurgir”. Esta frase pesaria muito no seu processo antes de sua condenação à ignominiosa morte na cruz. Entretanto, após sua ressurreição os discípulos se lembraram do que Ele dissera e creram em suas palavras. Ao lado da reverência que se deve ter à Casa de Deus, a outra grande lição deste fato ocorrido no templo de Jerusalém é o significado do Corpo de Cristo, de sua Pessoa na qual se uniram as natureza divina e humana. Ele verdadeiramente o Homem-Deus ou o Deus feito homem para salvar a humanidade. Ele é o templo da Nova Aliança. É por Ele e nele que temos acesso junto ao Pai e o Pai vem até nós. É Ele aquele que com o Pai nos envia continuamente o Espírito Santo vivificador. Ele é o único mediador que nos transmite a força de santificação concentrada para sempre na sua Pessoa de acordo com o projeto de Deus. São Paulo assim se expressou na Carta aos Romanos: “Aqueles que Deus contemplou com seu amor desde sempre, a esses ele predestinou a ser conforme à imagem de seu Filho, para que este seja o primogênito numa multidão de irmãos” (Rm 8,29- 30). Cumpre, portanto, que nos lembremos sempre que o Corpo ressuscitado de Cristo “no qual habita corporalmente a divindade” é o Templo de Deus por excelência e todo cristão é membro deste Corpo e com Ele somos o templo onde habita o Espírito de Deus. Se é o pecado que profana este templo, também as preocupações terrenas, a fixação nas coisas materiais deslustra, esta habitação da divindade. Eis porque se deve estar unido a Cristo que nos conduz sempre para o Pai e nos irriga do amor daquele que tanto nos ama. Por Cristo, com Criso e em Cristo ressuscitado se dá o dinamismo reconfortante do cristão que está no mundo, mas não é deste mundo, porque caminha para a Casa do Pai. Eis aí a dignidade do cristão que não pode se degradar por ser também a moradia santa de Deus. Tudo isto leva então a refletir profundamente o que disse São Paulo aos Coríntios: “Não sabeis que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Ora, se alguém trata mal o templo de Deus, Deus maltrata-lo-á também. Porque sagrado é o templo de Deus e tal tempo sois vós” (1 Cor 3, 16-17). É preciso, em consequência, ornamentar este templo com a prática das virtudes, fugindo de todas as ocasiões nas quais se poderia conspurcar esta morada sagrada do Deus três vezes santo. Se Jesus agiu energicamente contra os vendilhões do templo de Jerusalém, Ele, entretanto, cumula de todas as bênçãos aqueles que procuram valorizar esta sua morada sagrada que é a alma em estado de graça. O fato que se deu em Jerusalém leva ao respeito que é preciso ter dentro de nossas Igrejas e muito mais ainda necessita nos conscientizar que somos o templo vivo de Deus. Assim sendo, que nos esforcemos em praticar o bem e que nossa alma aprenda a se abster das concupiscências corporais. Grandiosas mensagens a serem vividas nesta trajetória quaresmal!

* Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.


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