Refletindo sobre os valores

05/03/2018 às 09h28

Pe. José Carlos dos Santos

O tempo da quaresma e a proximidade da celebração da páscoa nos inserem na dinâmica da reflexão sobre questões de ordem existencial. Neste período nosso olhar se direciona para o nosso interior, e nos perguntamos sobre as pessoas que somos. Consideramos igualmente o nosso agir, nossas atitudes, confrontando-as com as atitudes que nossa consciência nos mostra que deveríamos ter desenvolvido e assumido. Como resultado, percebemos uma distância, adequada ou não, equilibrada ou não, entre o que somos e o que deveríamos ser.

São os valores que nos orientam nesta reflexão, porque são eles que definem a natureza do nosso agir. São o conteúdo de nossa identidade, e marcam o ritmo e o colorido de nossa existência. As pessoas são o que são, em grande parte, por consequência do sistema de valores que estão internalizados em sua personalidade.

Carl Jung, psicólogo suíço, entende os valores não somente como realidades mentais. Para Jung, uma pessoa não precisa dizer quais são os seus valores. Basta observar como se comporta. Se a relação interpessoal, por exemplo, se constitui num valor para uma pessoa, necessariamente esta pessoa gastará muito de seu tempo e de sua energia mental estabelecendo e zelando por seus relacionamentos interpessoais. É o que mais lhe estará ao coração e dará sentido à sua existência.

Em determinado sentido, é equivocado falar de ausência de valores, expressão comumente muito repetida. Excetuando as situações de patologia, a realidade é submetida invariavelmente a alguma forma de hierarquia, diferenciando-se o que vale e o que não vale, o que tem sentido e o que é neutro, o que tem mais e o que tem menos significado.

Numa perspectiva evolutiva, a fase inicial da vida é caracterizada pelos valores vinculados aos sentidos, ao bem-estar físico, corpóreo. Para um recém-nascido o seio é mais importante que a mãe, cuja presença e significado escapam à capacidade de percepção e compreensão. O mundo interior, nesta etapa, é um complexo de sensações, e tem valor o que é prazeroso, o que provoca a sensação de bem-estar.

Na medida em que o desenvolvimento do bebê progride, o mundo interior deixa de ser dominado pela busca do hedonismo sensorial, e a atenção migra para as relações interpessoais. Nesta nova e prolongada etapa, tudo o que interfere nos relacionamentos, sobretudo com as pessoas mais próximas e significativas, assume uma valência valorativa especial. Torna-se mais importante ser amado pelos pais, ser aceito pelo grupo, ser elogiado e aplaudido que os valores da etapa anterior. É a partir desta específica organização mental que a criança se empenha para o desenvolvimento da inteligência, que são moldados os gostos artísticos, que a força de vontade é constituída e direcionada. Valor, nesta fase, é tudo aquilo que permite ocupar um lugar de destaque no universo humano.

A partir da adolescência, uma nova etapa se descortina no processo de desenvolvimento, e irá culminar na idade adulta. Nesta etapa a pessoa desenvolve uma especial capacidade de pensar criticamente (raciocínio abstrato), o que permite ir além do que é comum, do que é aceito pela maioria, do que é ensinado e valorizado pelo grupo, e buscar o que é bom, o que é verdadeiro. É nesta etapa que se tem a capacidade de criar uma organização interior, em que os determinismos físicos e psíquicos, presentes nas etapas anteriores, cedem lugar à liberdade de escolha e de autodeterminação. Só o homem, porque criado à imagem e semelhança de Deus, como um ser capaz de encontrar a verdade, de buscar o que é bom, consegue construir uma vida que não seja dominada pelos prazeres dos sentidos e pela busca da fama e do sucesso.

Contudo, devemos reconhecer que nem sempre o desenvolvimento humano progride da imaturidade para a maturidade. Há muitas situações em que a mente adulta permanece dominada por componentes característicos da infância. São os casos em que, para uma pessoa adulta, somente tem valor o que é agradável e prazeroso. As escolhas e os comportamentos permanecem fechados num horizonte egoísta, que somente reconhece a si mesmo e os próprios desejos. Para outras pessoas, há o reconhecimento e a presença do outro, mas numa semelhante ótica egocêntrica. Valor é o que engrandece o ego, o que traz reconhecimento e status. Configura-se uma personalidade essencialmente narcisista.

Concluindo, a pergunta que nos fazemos é muito simples e direta: qual a natureza dos nossos valores? Meu mundo interior é orientado para o que é útil à vida humana, ao que é verdadeiro e bom, ou permaneço dominado por um mundo interior imaturo, hedonista, egocêntrico e infantil?


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