Sal da terra e luz do mundo

05/10/2016 às 09h27

Imagine um povo que depende em grande parte da pesca para a sua subsistência. Só que esse povo é pobre e vive num tempo em que ainda não existe freezer ou geladeira. E o peixe, não congelado, se perde rapidamente. É preciso salgá-lo para conservar. Sim, o sal evita a corrupção.

Como a pesca se dá mais à noite e, nessa região, o frio intenso é muito comum, os pescadores precisam de algo para aquecer. Providencialmente, a alta salinidade das águas faz com que sejam comuns ‘pedras’ de sal, que são também um bom combustível. Os pescadores, na sua sabedoria, acendem o fogo com aquele sal. Ele vai aquecer o frio e iluminar a escuridão.

Mas é claro que não é só isso. O sal vai dar sabor e tempero aos alimentos. E isso faz a diferença. Já experimentou comer feijão, arroz, carne suína sem nem sequer um ‘arzinho’ de sal? Nada agradável, não?

Pois bem, olhando para essa realidade fica muito mais fácil perceber o alcance da palavra que Jesus dirige aos seus discípulos e discípulas: “Vocês são o sal da terra” (Mt 5,13). Essa palavra faz parte do grande discurso das “Bem-aventuranças”, onde ele traça o caminho para a Vida e o projeto do novo Reino. É como dizer: vocês vão combater toda corrupção, toda injustiça, lutar para que a comunidade não apodreça no mal, na ambição, no egoísmo, na falta de ética e de compromisso com a vida. Serão profetas do Reino.

Você irão aquecer toda frieza, toda indiferença, toda apatia, com sua alegria, seu idealismo, seu entusiasmo, sua doação, seu dinamismo.

Assim, vocês darão mais sabor à vida, dar tempero, tornar a sua vida e a dos irmãos mais prazerosa, mais amena.

Imagine agora um outro quadro. Inesperadamente acontece na cidade um apagão. Tudo fica escuro. É um “Deus nos acuda”. Quase impossível andar. Erramos o caminho, tropeçamos. Mesmo que haja alguém por perto, um abismo, uma flor, tudo desaparece.

Aí vem Jesus e nos diz: “Vocês são a luz do mundo” (Mt 5,14). E imaginamos o peso dessa expressão. Entendemos que ele quer dizer: vocês vão combater todo tipo de trevas: o pecado, o vício, a maldade, a ignorância, a violência, a droga. Lutar para superar a falta de esperança e de perspectiva. Face a toda essa realidade que assusta e faz sofrer, vocês serão uma presença de luz. Ajudarão as pessoas a caminhar melhor, a encontrar o caminho certo, a enxergar o rosto do outro e a beleza das coisas. Darão novo colorido à vida.

Pois bem; esse é, em síntese, o recado que a Igreja católica no Brasil quer também nos passar com o Documento 105, sobre a missão do laicato, dentro da própria Igreja e na sociedade. Há um vasto campo de ação à nossa espera. No mundo da política, da saúde, da educação, do trabalho... Diante da realidade de tantas crianças sem lar e sem futuro; tantos jovens que ainda não encontraram um sentido para a própria vida; de famílias em crise; de tantos idosos solitários. Face à ameaça do consumismo, da droga, da violência, é urgente que haja um povo de fé, portador de valores e princípios, que vença a acomodação e se lance com coragem nesse mundo. Bem visivelmente, como a luz! Ou mesmo que discretamente, como o sal.

E é isso que iremos também refletir na próxima Assembleia Arquidiocesana do Laicato, no próximo dia 8 de outubro, em Barbacena.

Pe. José Antonio de Oliveira


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