Quem espera nunca alcança...

03/01/2017 às 09h00

2016 foi um ano conturbado. No Brasil, muitas decepções, sobretudo no campo da política. Ética ferida, poder usurpado, justiça parcial, direitos conquistados com suor e sangue sendo solapados, conchavos, manipulação da mídia... Panelas que bradaram por melhoras, calaram-se covardes face a verdadeiros desmandos. Vozes que ecoaram por ética, se emudecem ante o insulto à democracia e à Constituição.

No campo eclesial, cresce a onda de conservadorismo e devocionismos. Mesmo com a postura profética e misericordiosa do grande papa Francisco, clamando por uma Igreja pobre, comprometida, missionária, parceira dos excluídos e rejeitados, engrossam-se as fileiras dos que optam pela estética, pelo luxo, pelo status...

Apesar de sermos seguidores de um Cristo Libertador (cf. Gl 5,1), embora Jesus tenha dito que não nos trata como servos, mas como amigos (cf. Jo 15,15), vão surgindo pessoas e grupos que se intitulam ‘escravos’ até de Maria e usam correntes pelo corpo. A realidade é, no mínimo, inquietante.

Tem início agora um novo ano. Naturalmente, isso não passa de uma convenção humana, ou, como diz Drummond, a genial ideia de cortar o tempo em fatias para ressuscitar a esperança. Não existe mágica alguma. Por fora, as coisas podem mudar pouco, ou nem fazer diferença. “Mas renova-se a esperança”, canta Milton Nascimento.

Por isso, é tempo de acreditar, de encarar a luta, de superar todo pessimismo, desânimo ou cansaço. Não se trata de embarcar num otimismo ingênuo. Ou de “tapar o sol com a peneira”. Aliás, Rubem Alves deixa claro que esperança é muito diferente de otimismo. “Otimismo é alegria por causa de: coisa humana, natural. Esperança é alegria a despeito de (apesar de): é coisa divina...”.

Paulo Freire dizia que a Esperança não vem do verbo ‘esperar’, mas de ‘esperançar’. Não basta aguardar de braços cruzados, ou esperar que os outros resolvam. É preciso ir atrás, lutar, ousar. “Quem espera nunca alcança: você tem que procurar”, canta o Grupo Temucorda.

Mas o ano de 2016 revelou também boas sementes que começam a germinar. O despertar de muitos jovens que se mobilizaram contra uma pseudo reforma no ensino e contra a violência contra a própria juventude. O uso das redes sociais para minimizar os estragos de uma mídia parcial e manipuladora. Grupos que se levantam contra a parcialidade da justiça. Preocupação da Igreja com relação aos refugiados, migrantes e as vítimas pobres do terrorismo. Percebemos sementes que brotam nos movimentos populares de luta pela vida, nos conselhos organizados, nas pastorais, nos movimentos pela inclusão, na resistência e teimosia dos pobres.

A esperança nos leva a acreditar que algo melhor é possível. Mais do que a simples expectativa de respostas imediatas, mais do que o otimismo alienante da ilusão, cresce em nós a esperança de mudanças mais profundas, a começar pela mudança de mentalidade. Esperança de que a mobilização popular consciente, como tem defendido o papa Francisco, pode forçar as elites a empreenderem reformas que são urgentes, a respeitarem a opinião e as reais necessidades do povo, colocando a vida em primeiro lugar. Como diz o profeta: “Os que esperam no Senhor renovam suas forças, criam asas como águia, correm sem se cansar, caminham sem parar” (Is 40,31).

Mesmo que não haja otimismo, a esperança nos arrasta, nos anima a prosseguir. Ressoa em nossos corações a teimosia de Cora Coralina: “Tem mais chão nos meus olhos do que cansaço em minhas pernas. Mais esperança em meus passos do que tristeza nos meus ombros. Mais estrada no meu coração do que medo na minha cabeça”.

Pe. José Antonio de Oliveira


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