Doenças mentais e Ministério Ordenado: o desafio do cuidado

14/07/2017 às 10h43

A palavra cuidado faz parte do vocabulário da Igreja Católica. O cristianismo, em sua essência, revela a relação de cuidado de Deus para com a criação. Deus cria por amor. E continua amando e cuidando de tudo o que foi criado por Ele. O ser humano, considerado obra-prima da criação, tem em Jesus Cristo, em seu projeto salvífico, a expressão máxima da atenção cuidadora, amorosa, de Deus. A experiência de que somos objeto da atenção de Deus nos compromete. Assim como Deus cuida de cada um de nós, seus filhos, devemos nós também nos responsabilizar pelo cuidado daqueles que necessitam.

O que esta reflexão tem a ver com o tema das doenças mentais e com o Ministério Ordenado? A resposta é simples: o cuidado está direcionado para o bem-estar global, para a totalidade da pessoa. Cuida-se da dimensão física, da saúde espiritual, mas também se deve estar atento ao cuidado daqueles que se fragilizam em sua organização mental. Em texto anterior citamos estudos que afirmam que um percentual significativo de presbíteros padece de doenças mentais graves. Foi dito ainda que, quanto à saúde mental, é irrelevante o fato de se ter feito ou não a experiência de seminário.

Resumidamente podemos distinguir as doenças mentais em neurose, estados borderline e psicose. O nível mais acentuado de gravidade é o da psicose (esquizofrenia, por exemplo), como se sabe. A neurose é caracterizada sobretudo por um estado de ansiedade difusa, não-específica, contra a qual a pessoa se sente indefesa. Como este estado é muito doloroso, a pessoa acaba criando um jeito de viver para se defender, que pode assumir características muito variadas. Por exemplo, pode se instaurar uma busca de aprovação, um desejo de afeto, ou um desejo de poder, neuróticos. Tornam-se acentuados e insaciáveis. São refratários às iniciativas de ajuda ordinárias, com a grande possibilidade de assumirem o controle do funcionamento mental, configurando-se como a característica central da pessoa. Em semelhante situação, a pessoa vive em função da neurose.

Por borderline há estudiosos que entendem um tipo de organização mental em que a pessoa oscila entre atitudes e comportamentos normais e equilibrados, e atitudes e comportamentos claramente anormais e doentios. A essência do desequilíbrio é a acentuada emotividade e a impulsividade. A pessoa, então, embora se mostre equilibrada e normal em muitas situações, em muitas outras apresentará surtos de raiva e variados comportamentos impulsivos (bebida, modo de dirigir, uso de drogas, sexo), instalando-se um quadro de estável instabilidade.

Esta apresentação extremamente sintética da caracterização das doenças mentais nos permite perceber o quanto é desafiante o tema do cuidado, e sobretudo se a pessoa que necessita de cuidado é um ministro ordenado. Desde que ingressamos no seminário, preparamo-nos técnica e psicologicamente para cuidar das pessoas. E isto muito nos realiza! Mas em geral temos muita dificuldade em aceitar nossas fragilidades, e especialmente aquelas que são de natureza psicológica.

Outra questão a se considerar é quanto a uma deficiência quase estrutural para este tipo de cuidado. Há alternativas de cuidado para o presbítero fisicamente frágil e doente. Mas o que fazer nos casos em que se tratar de um presbítero neurótico, borderline ou psicótico? O agravante nestes casos é que a face visível da psicopatologia poderá ser um quadro de comportamento extremamente desequilibrado, apego ao poder, bem como situações de alcoolismo ou dependência química. Há ainda os muitos desequilíbrios na esfera afetiva e sexual. Em todos estes casos, é extremamente difícil discernir sobre o tipo de cuidado a ser oferecido.

Concretamente, os quadros mentais acima descritos farão com que tais pessoas sejam fortemente resistentes ao cuidado de que necessitam, e este é o desafio maior. Em geral, o insight e o autoconhecimento se tornam muito limitados, o que limita e fragiliza a possibilidade de serem cuidados, com a consequente superação das próprias limitações.

Então, o que fazer nestas situações? Difícil ter uma resposta que valha para todos os casos, mas cabe à Igreja zelar para que os seus ministros ordenados gozem de uma satisfatória saúde mental. É direito dos leigos e exigência do ministério ordenado!

Padre José Carlos dos Santos


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