Lições do episódio no tabor

31/07/2017 às 11h52

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Jesus levou Pedro, Tiago e João ao monte Tabor onde fatos maravilhosos aconteceram (Mt 17,1-9). Transfigurou-se diante deles, quando apareceram Moisés e Elias. Um grande júbilo se apossou dos três apóstolos e Pedro exclamou: “É bom estarmos aqui”. Ao ouvirem, contudo, a voz do Pai “foram tomados de um grande medo”. É o que normalmente ocorre nas preces que cada um faz, entrando em contato mais profundo com a divindade. Por vezes a oração pode ser deliciosa e repleta de consolações espirituais, mas há momentos das sombras, das distrações, dos abatimentos, dos esmorecimentos ou desalentos. Como os Apóstolos no Tabor há instantes de luzes e de trevas. Isto aconteceu também com grandes santos. O principal é perseverar, pois Jesus sempre dirá o que falou a Pedro, Tiago e João: “Levantai-vos e não temais”. É que o Mestre divino, sempre fiel, recompensa continuamente os que nele confiam. Eis porque São Paulo aconselhou aos Efésios: “Por meio de todas as espécies de oração e de súplicas, orai incessantemente movidos pelo Espírito (Ef 6,18). Em qualquer circunstância se ouvirá a voz de Jesus: “Não tenhais medo” A presença dele é sempre reconfortante e dá coragem para nunca abandonar a oração. No Tabor a Boa Nova do amor do Pai se manifestou claramente em Jesus Cristo, mas foi dada uma ordem: “Escutai-O”. Cristo nos mostrará sempre o Pai das misericórdias que para salvação da humanidade sacrificará o seu Filho bem amado, cuja paixão, porém, anunciaria a vitória da vida divina sobre a morte corporal. Foi por isto que Jesus recomendou aos três Apóstolos que não falassem a ninguém daquela visão até que o Filho do homem ressuscitasse da morte. Em Jesus se realizou plenamente a Nova Aliança do Deus clemente com os homens. Da Antiga Aliança dois personagens emblemáticos apareceram no Tabor, Eram representantes das duas fontes da revelação judaica, ou seja, a Lei e os Profetas, Moisés e Elias. Quando se escutou a voz do Pai, uma nova etapa da revelação se deu. Foi quando Moisés e Elias se afastam e Jesus, a plenitude da revelação, ficou só diante dos Apóstolos. O acontecimento da Transfiguração reorienta fundamentalmente a revelação da primeira Aliança. Agora a grande mensagem do Pai é uma Pessoa, a do seu Filho querido. Não mais uma nova lei ou uma nova profecia, mas a fé na obra salvífica operada em Cristo. Trata-se então da era cristã baseada na fé em Jesus. No sentido estrito, o Evangelho, a Boa Nova, estaria fundamentado no triunfo de Jesus sobre a morte. A vida de Cristo, seus exemplos manifestam o autêntico caminho da salvação eterna através de uma comunhão total com Deus, carregando cada um de seus discípulos sua cruz de cada dia. Eis a base da espiritualidade com que se acatam os sofrimentos para se chegar à luminosidade celeste. Aquele Jesus que os apóstolos contemplaram transfigurado em sua glória seria o mesmo Jesus que passaria por sua paixão dolorosa até o triste final no alto de um ignominioso madeiro. Donde o equívoco de Pedro de não querer mais descer do Tabor. A religião dos cristãos é uma religião da relação viva e atual com Cristo padecente e vitorioso, presente na vida de cada um de seus seguidores. Este episódio da Transfiguração de Jesus quer incutir coragem, pois Ele está a repetir: “Eu sou o vencedor do mundo” (Jo 16,33).. Com Ele o cristão pode atravessar as provas e dificuldades da vida. O Pai, porém, não nos abandona nunca. Cumpre finalmente pensar que vivemos num tempo de Transfiguração e de Desfiguração. Com efeito, o contexto atual mostra um mundo desfigurado pela violência, pela fome, pelos assaltos aos cofres públicos. Pela pobreza que campeia nos países do Terceiro Mundo, na África, na Ásia, na América latina. Contudo, tempo também de transfiguração com a ação dos verdadeiros cristãos que se empenham na luta por um mundo melhor, mais justo no qual haja uma distribuição equânime das riquezas, abominando os desonestos que deixam à mingua milhares de pessoas. Por tudo isto cumpre recolher todas as lições do Tabor, transfigurando-se cada um a ponto de poder repetir com São Paulo: “Já não sou eu quem vive, é Cristo quem vive em mim” (Gl 12,20).

Professor no Seminário de Mariana, durante 40 anos.


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