quinta-feira

, 02 de abril de 2020

Artigo de Pe Adilson Luiz Umbelino Couto
Padre Adilson Luiz Umbelino Couto é presbítero do clero da Arquidiocese de Mariana.
É natural de Rio Espera-MG, e atualmente está coordenando o Grupo de Orientação Vocacional (GOV), e também diretor da comunidade Vocacional Nossa Senhora da Assunção em Mariana. Também coordena a dimensão acadêmica do Seminário Arquidiocesano São José, lecionando no curso propedêutico, filosofia (FDLM) e teologia. E ainda, atua como Diretor Espiritual do Colégio Providência.

Ele é Mestre em Teologia e Ciência Patrística pelo Instituto Patrístico Augustinianum da Universidade Lateranense de Roma.
Tem Especialização em Cultura e Meios de Comunicação pelo SEPAC/Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC/SP.
Pós Graduação Lato Sensu para formadores de Presbíteros Diocesanos no Instituto Santo Tomás de Aquino - ISTA/BH.
Bacharel em Teologia pela Pontifícia Universidade Lateranense - Roma.
Possui graduação em Teologia pelo Instituto de Teologia São José (2005) e é Bacharel Licenciado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.

A oração de Jesus durante a sua agonia no Horto do Getsêmani é inspiração para a nossa oração, sobretudo neste tempo quaresmal e de “quarentena”

23 de março de 2020 Pe Adilson Luiz Umbelino Couto

* Pe Adilson Luiz Umbelino Couto

Em nossa preparação para a celebração da Páscoa redentora do Senhor, vendo esta pandemia do coronavírus (COVID-19), em todo o planeta, meditemos um pouco sobre a paixão de Jesus e sua oração no Monte das Oliveiras. Nesta hora de tantas crises e perturbações espirituais e emocionais, por todo o mundo, começamos refletindo sobre esta cena:depois da celebração da última ceia, onde no centro estava uma oração de agradecimento e de louvor, Jesus sai novamente em oração com os seus: é o momento de Getsêmani. Ele sai com os seus discípulos na noite, que recorda de perto aquela noite em que foram mortos os primogênitos do Egito, e Israel foi salvo graças ao sangue do cordeiro (Ex 12). É noite de Páscoa. Agora, Jesus sai na noite em que Ele deve assumir sobre o destino do cordeiro.

O agradecimento pela libertação que rezara, poucos instantes antes, torna-se agora uma imploração de ajuda no meio de tribulações e ameaças sempre novas. Jesus reza em perfeita comunhão com Israel, uma vez que Ele mesmo é Israel de um modo novo: a Páscoa antiga aparece agora como um grande esboço antecipado. De fato, a nova Páscoa é o próprio Jesus e a verdadeira libertação realiza-se agora por meio do seu amor, que abraça a humanidade inteira.

Caminhemos com Jesus para o Monte das Oliveiras. Nas noites anteriores, Jesus retirara-se para Betânia; mas nesta noite, que celebra como a sua noite de páscoa, respeita a prescrição de não abandonar Jerusalém, e vai conscientemente ao encontro do traidor e da hora da Paixão. E foram a um lugar cujo nome é Getsêmani. E ele disse aos seus discípulos: “Sentai-vos aqui, enquanto vou orar” (Mc 14, 32). No tempo de Jesus, nesta encosta do Monte das Oliveiras, havia um lugar onde espremiam as azeitonas, e davam a este lugar o nome de Getsêmani. Muito perto havia uma caverna natural, que podia proporcionar a Jesus e aos seus discípulos um abrigo seguro, embora não muito cômodo para a noite. Trata-se de um dos lugares mais veneráveis do cristianismo: “a rocha sobre a qual, segundo a tradição, orou Jesus.

No Monte das Oliveiras, está o ápice dramático do mistério do nosso Redentor: aqui Jesus experimentou a solidão extrema, toda a tribulação de ser homem. Aqui o abismo do pecado e de todo o mal penetrou o mais fundo da sua alma. Aqui foi assaltado pela turvação da morte iminente. Aqui, beijou-o o traidor. Aqui todos os discípulos O abandonaram. Aqui Ele lutou também por mim, por você, por cada um de nós.

São João, no início da Narrativa da Paixão, diz assim: “Do outro lado da torrente do Hedron, havia ali um jardim (18, 1). Esta mesma palavra aparece no final da narrativa: “Havia um jardim, no lugar onde Ele fora crucificado e, no jardim, um sepulcro novo, no qual ninguém fora ainda colocado” (19,41). É evidente que João, com a palavra ‘jardim’, alude à narração do Paraíso e do pecado original. No ‘jardim’ acontece a traição, mas o jardim é também o lugar da ressurreição. De fato, no jardim, Jesus aceitou completamente a vontade do Pai, assumiu-a e assim inverteu a história.

No monte das Oliveiras, Jesus reza. Depois da recitação ritual dos Salmos em comum, Jesus reza sozinho, como fizera tantas noites antes. Todavia, deixa perto de Si o grupo dos três: Pedro, Tiago e João. Apesar de dominados pelo sono, tornam-se as testemunhas da sua luta noturna. O Evangelho de Marcos conta-nos que Jesus começa a “apavorar-se e angustiar-se”. O Senhor diz aos seus discípulos: “A minha alma está triste até a morte. Permanecei aqui e vigiai” (Mc 14, 33-34). Esta palavra se dirige a cada um de nós, agora, permanecei aqui e vigiai.

A sonolência dos discípulos permanece, ao longo dos séculos, a ocasião favorável para o poder do mal. Essa sonolência é um entorpecimento da alma, que não se alarma com o poder do mal no mundo, com toda a injustiça e com todo o sofrimento que devastam a terra. É uma indiferença que prefere não dar conta de tudo isso; com o pensamento de que tudo isso não tem a ver comigo, e não é tão grave assim; e continuamos a colocar a cabeça no travesseiro com muita comodidade. Essa indiferença moral e social, esse embotamento da alma, essa falta de vigilância, seja quanto à proximidade com Deus, seja quanto à força ameaçadora do mal na sociedade, confere ao maligno um poder no mundo. Diante dos discípulos sonolentos no Monte das Oliveiras, e diante da nossa falta de vigilância, hoje, o Senhor diz de Si mesmo: “A minha alma está triste até a morte”. Trata-se de uma palavra do Salmo 43, 5, na qual ressoam outras expressões do Salmo.

Depois dessa exortação à vigilância, Jesus afasta-Se um pouco. Começa a verdadeira oração do Monte das Oliveiras. Mateus e Marcos dizem-nos que Jesus caiu de rosto por terra: é a posição de oração que exprime a extrema submissão à vontade de Deus, o abandono mais radical a Ele; uma posição que a liturgia ocidental prevê ainda na Sexta-feira Santa (ação litúrgica, o gesto do início da celebração), também na profissão monástica e também nas ordenações diaconal, presbiteral e episcopal.

Já o evangelista Lucas diz que Jesus reza de joelhos. Nesta posição da oração, verificamos a luta noturna de Jesus no contexto da história da oração cristã: Estêvão, durante a lapidação, dobra os joelhos e reza (At 7, 60); Pedro ajoelha-se antes de ressuscitar Tabita da morte (At 9,40); Paulo ajoelha-se, quando despede dos cristãos de Éfeso (At 20,36), e outra vez quando os discípulos lhe dizem para não subir a Jerusalém (At 21,5); Todos eles, perante a morte, rezam de joelhos; o martírio não pode ser superado senão através da oração. Jesus é o modelo dos mártires.

Meditando sobre a oração do Senhor no Montes das Oliveiras, no contexto da sua Paixão, refletimos como tem sido nossa vida de oração. A oração do Senhor nos inspira e ilumina porque é a oração verdadeira e propriamente dita, na qual está presente todo o drama da nossa redenção. O Evangelho de Marcos diz que Jesus orava para que, “se possível, passasse d’Ele a hora” (Mc 14, 35). Depois cita assim a frase essencial da oração de Jesus: “Abba! Ó Pai! Tudo é possível para Ti: afasta de Mim este cálice; porém não é o que Eu quero, mas o que Tu queres” (Mc 14,36).

O Compêndio do Catecismo da Igreja Católica ensina sinteticamente: “A oração de Jesus durante a sua agonia no Horto do Getsêmani e as suas últimas palavras na cruz revelam a profundidade da sua oração filial: Jesus leva a cumprimento o desígnio de amor do Pai e toma sobre si todas as angústias da humanidade, todos os pedidos e as intercessões da história da salvação. Ele os apresenta ao Pai que os acolhe e atende, além de toda esperança, ressuscitando-o dos mortos” (n.543). Verdadeiramente “em nenhuma outra parte da Sagrada Escritura olhamos tão profundamente dentro do mistério interior de Jesus, como na oração no Monte das Oliveiras” (J. RATZINGER, Jesus de Nazaré, II, 177)

Todos os dias na oração do Pai Nosso, nós pedimos ao Senhor: “seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6,10). Reconhecemos, isto é, que existe uma vontade de Deus conosco e para nós, uma vontade de Deus sobre a nossa vida, que deve se tornar cada dia mais uma referência do nosso querer e do nosso ser, reconhecemos ainda que é no “céu” onde se faz a vontade de Deus e que a “terra” se torna céu, local da presença do amor, da bondade, da verdade, da beleza divina, somente se na mesma é realizada a vontade de Deus.Na oração de Jesus ao Pai, naquela noite terrível e estupenda do Getsêmani, a “terra” se torna “céu”; a “terra” da sua vontade humana, tomada pelo medo e pela angústia, foi assumida pela vontade divina, assim que a vontade de Deus se realizou sobre a terra. Isto é importante também na nossa oração: devemos aprender a confiar-nos mais à Providência divina, pedir a Deus a força de sairmos de nós mesmos para renovarmos o nosso “sim”, para repetir-lhe “seja feita a vossa vontade”, para conformar a nossa vontade à sua. É uma oração que devemos fazer cotidianamente, porque nem sempre é fácil confiar-nos à vontade de Deus, repetir o “sim” de Jesus, o “sim” de Maria. As narrações evangélicas do Getsêmani mostram dolorosamente que os três discípulos, escolhidos por Jesus para estarem próximos dele, não foram capazes de vigiar com Ele, de partilhar a sua oração, a sua adesão ao Pai e foram envolvidos pelo sono.

Peçamos ao Senhor para que sejamos capazes de vigiar com Ele na oração, de seguir a vontade de Deus todos os dias também quando se fala de Cruz, de viver uma intimidade sempre maior com o Senhor, de trazer para esta “terra” um pouco do “céu” de Deus.

 

* Formador e Professor no Seminário São José – Mariana.

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