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Artigo de Pe. Geraldo Martins Dias

Crime, luta e resistência: quatro anos!

05 de novembro de 2019 Pe. Geraldo Martins Dias

Mariana e o Brasil fazem, hoje, memória dos quatro anos do maior crime socioambiental ocorrido no país: o rompimento da barragem de Fundão, no distrito de Bento Rodrigues, distante pouco mais de 20 km da cidade primaz de Minas Gerais. Na tarde daquela quinta-feira, 5 de novembro de 2015, uma avalanche de mais de 50 milhões de metros cúbicos de rejeito de minério deixou rastros de destruição e morte cujas consequências até hoje estão por ser mensuradas.

Mais que lamentável, é vergonhoso constatar que, passado todo esse tempo, a justiça está longe de ser feita. Os moradores de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, subdistritos totalmente destruídos pelos rejeitos, continuam residindo em Mariana, em casas alugadas pela Samarco, sem previsão de quando terão suas casas de volta. O mesmo se diga em relação a algumas famílias de Gesteira, no município de Barra Longa.

A construção dos subdistritos em novas áreas, longe da barragem, é apenas uma parte da história. As indenizações, reparações e compensações também fazem parte de negociações infindáveis com desgastes que levam do estresse à indignação, do desânimo à revolta, do cansaço à incredulidade. O processo longo e desgastante na defesa de seus direitos requer dos atingidos e atingidas, bem como de seus parceiros, muita resistência. É uma luta desgastante, exigente e nem sempre é fácil preservar.

As manifestações e atividades realizadas nesta semana, sobretudo no dia de hoje, para lembrar a data têm a finalidade tanto de não deixar o crime cair no esquecimento quanto de denunciar a violação de direitos dos atingidos e atingidas que continua a ocorrer ao longo desses quatro anos. Não obstante alguns órgãos da grande imprensa publicarem longas reportagens sobre ações da Fundação Renova, responsável pelas reparações do crime, como, por exemplo, a construção das casas de Bento Rodrigues e a recuperação da bacia do Rio Doce, só quem está na luta do dia a dia consegue perceber o quanto a realidade está distante do que dizem algumas fotos e depoimentos.

O jornal A Sirene tem cumprido um papel importantíssimo ao registrar os sonhos, as lutas, as decepções e as vitórias dos atingidos e atingidas ao longo desse tempo. Aliados desde a primeira hora dos atingidos/as como a Arquidiocese de Mariana, o Movimento dos Atingidos por Barragens e a Caritas Regional, além do Ministério público e outros parceiros, continuam a ser uma referência importante para as vítimas do crime das mineradoras Vale, BHP e Samarco.

Fazer memória dos quatro anos do rompimento da barragem de Fundão deve reacender no coração de todos o compromisso com a vida, com a justiça e com os direitos humanos e ambientais. Isso significa ter coragem de se posicionar contra quaisquer projetos políticos e econômicos que coloquem o lucro acima da pessoa humana e da natureza. Significa também a determinação de se colocar ao lado dos atingidos/as, ao longo de toda a bacia do Rio Doce, assumindo suas dores e suas lutas a fim de que lhes seja feita a justiça. Significa, por fim, exigir insistentemente das autoridades competentes a punição exemplar para os responsáveis por esse crime, que se repetiu em Brumadinho, no início desse ano, e ameaça tantas outras populações que vivem a insegurança e o medo de terem sua vida tragada por rejeitos de minério.

Chama atenção em toda essa luta a fé que tem alimentado a esperança e certeza dos atingidos e atingidas de que seu sacrifício não será em vão. Eles têm provado que Deus, de fato, é parceiro dos pobres, dos injustiçados e dos oprimidos. Quem nele espera jamais se decepciona. A virgem Maria sabia disso e, por isso, cantou que Deus tira os poderosos de seus tronos e neles coloca os humildes, sacia de bens os famintos e despede os ricos sem nada (cf. Lc 1,52-53). Seja esse o canto a animar os atingidos/as e os seus aliados no caminho que conduz para a vitória com justiça e vida.

 

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