domingo

, 05 de abril de 2020

Artigo de Pe. José Antonio de Oliveira
José Antonio de Oliveira, nascido aos 26 de abril de 1952, em Capela Nova, MG. Filho de Alcebíades Rodrigues de Oliveira e Maria Augusta de Oliveira. Estudos: Capela Nova, vários colégios salesianos e Mariana. Ordenado padre em Capela Nova, aos 21 de agosto de 1977.

Atualmente, pároco de São João Batista, em Barão de Cocais, e acompanhando o Conselho do Laicato da Arquidiocese de Mariana.

Francisco: uma Igreja da base

04 de fevereiro de 2020 Pe. José Antonio de Oliveira

“Francisco é mais que um nome: é um projeto de Igreja, de uma sociedade mais simples e solidária”. Essa afirmação é de Leonardo Boff, em entrevista à Carta Maior, por ocasião do primeiro ano de pontificado do papa Francisco. E isso vai ficando cada vez mais claro.

O jeito de Francisco é mesmo uma volta às origens e um resgate da Igreja pobre para os pobres, profética, promotora da vida.

Desde sua ida à Ilha de Lampedusa, poucos meses após o início do seu pastoreio, onde foi “chorar os mortos que ninguém chora” e chamar a atenção do mundo para os mais excluídos e rejeitados, até as visitas a cadeias e hospitais, às periferias da sociedade, ele tem gritado ao mundo que aí está o foco do Evangelho.

Suas visitas ao Sri Lanka, Albânia, Cisjordânia, Bolívia, Cuba, Equador, Paraguai, Quênia, Uganda, República Centro-Africana, mostra sua preocupação com os pequenos. Quando foi a países considerados grandes e ricos, como Estados Unidos e França, foi para exigir justiça e respeito aos direitos humanos.

Como Jesus, ao se dirigir aos chefes, às autoridades, lideranças políticas e religiosas, tem quase sempre um discurso duro e exigente. Mas para o povo simples, para os sofredores, excluídos, tem sempre palavras de carinho, de misericórdia, de esperança. “Ai de vós…”. “Vinde a mim…”.

Francisco revela uma Igreja do coração, muito mais que do poder. Do amor e da compaixão, muito mais que das tradições e da norma pela norma. Mas sabe também mandar seu recado a quem precisa. Não adoçou palavras para se dirigir à Cúria Romana. Falou das doenças que atacam muitos daqueles que deveriam ser exemplo, por serem agentes e lideranças na Igreja: ser duros de coração; portar-se como “máquinas” e não como “homens de Deus”; ser contadores ou comerciantes; querer domesticar o Espírito Santo; sofrer de “alzheimer espiritual”; deixar-se levar por rivalidades e  vanglória; valorizar a aparência, as cores das vestes e as insígnias de honra; viver uma vida dupla, fruto da hipocrisia dos medíocres; preocupação com títulos; burocracia; fofocas e murmurações; matar a honra dos outros (“homicida a sangue frio”) – covardes que falam pelas costas; bajular os Superiores em busca de recomensa; carreirismo…

Mandou também seu recado ao presidente eleito dos Estados Unidos. Na viagem de volta da visita ao México foi interrogado sobre o candidato Donald Trump. Disse que não entraria na questão do voto, mas afirmou: “Uma pessoa que pensa apenas em construir muros, onde quer que seja, e não em construir pontes, não é um cristão”. Francisco sabe muito bem usar a diplomacia sem abrir mão da profecia.

Jesus escolheu prioritariamente gente simples para trabalhar com ele na construção do Reino. Não foi atrás dos poderosos, a quem ignorava e criticava. Francisco aposta na organização do povo trabalhador. Pela segunda vez, participou ativamente do Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Afirmou que esses movimentos são os semeadores da mudança tão sonhada. São os promotores do processo de conquista de algumas metas imprescindíveis: fazer com que a economia esteja a serviço das pessoas; construir a paz e a justiça; defender a Mãe Terra.

Conclamou a todos a “abraçar um projeto de vida que rechaça o consumismo e recupera a solidariedade, o amor entre nós e o respeito à natureza como valores essenciais”. A buscar uma “vida boa”, em vez do ideal egoísta que propõe a “boa vida”. Disse que a luta do povo organizado lhe “dá força”. E defendeu o projeto dos três Ts: terra, teto e trabalho.

Reconheceu que essa gestação de uma sociedade menos centrada no dinheiro e mais voltada para a pessoa “é ameaçada por forças poderosas” que podem neutralizar este processo. “Quem governa? O dinheiro. Como governa? Com o chicote do medo, da iniquidade, da violência econômica, social, cultural e militar (…). O medo, além de ser um bom negócio para os mercadores de armas e de morte, nos debilita, nos desequilibra, destrói nossas defesas psicológicas e espirituais, nos anestesia diante do sofrimento alheio e, ao final, nos torna cruéis”. Por isso Jesus nos diz: “não tenham medo” (Mateus 14, 27). “Sigamos trabalhando para construir pontes entre os povos, pontes que nos permitam derrubar os muros da exclusão e da exploração” As “três Ts” (terra, teto e trabalho), esse grito de vocês que eu faço meu, tem algo dessa inteligência humilde, que é, ao mesmo tempo, forte e sanadora.

Pe. José Antonio de Oliveira

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