domingo

, 05 de abril de 2020

Artigo de Mons. Luiz Antônio Reis Costa
Natural de Ouro Preto - MG, cursou o ensino fundamental e médio na terra natal, ingressando posteriormente no Seminário Arquidiocesano de Mariana onde cursou Filosofia e Teologia.
No Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus - Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia de Belo Horizonte obteve os títulos acadêmicos de Mestre e Doutor em Teologia Sistemática.

Leciona atualmente no curso de Teologia do nosso seminário. Foi pároco em várias paróquias da Arquidiocese e integrou a equipe de formadores da Teologia, sendo também diretor espiritual desta casa de formação.
Na Cúria Metropolitana ocupou a função de Chanceler do Arcebispado e foi diretor do Museu Arquidiocesano de Arte Sacra. Atualmente é Vigário Geral da Arquidiocese e Diretor do Arquivo Eclesiástico.

Gandhi e os cristãos

02 de março de 2020 Mons. Luiz Antônio Reis Costa

Uma das mais interessantes personalidades políticas do século XX foi Mohandas Karamchand Gandhi (1869 – 1948). Nascido numa tradicional família hindu, formado em Direito na Inglaterra. Atuou como advogado na África do Sul e, depois, em sua terra natal. Gandhi conheceu bem de perto a opressiva estrutura de exploração estabelecida pelo império britânico em suas colônias. Experiência chocante foi a de constatar a prepotência de muitos ingleses que abertamente se referiam aos demais povos, sobretudo os africanos e asiáticos, como raças inferiores e destinadas à submissão. Era a absurda afirmação da “supremacia branca europeia”.

Em 1915 retornou à Índia e ali iniciou uma intensa militância pelos direitos civis. Seu foco era organizar grupamentos de camponeses e se opor aos exorbitantes impostos sobre a terra. Também atuou nas periferias urbanas congregando trabalhadores atingidos por discriminações abusivas. Em 1921 assumiu a liderança do parlamento indiano e encabeçou numerosas causas sociais e a campanha por maior autonomia da Índia em relação à metrópole inglesa. Esse processo culminará com a proclamação da independência da Índia em 1947.

O diferencial desse notável líder foi o emprego de métodos não violentos para alcançar impressionantes mudanças de ordem política e social. Nessa práxis não-violenta destacavam-se a desobediência civil, as longas marchas pacíficas de protesto, o não pagamento de impostos e taxas coloniais, a promoção da convivência pacífica entre hindus e muçulmanos, as greves de fome, os gestos simbólicos e as grandes campanhas de mobilização popular. O premiado filme “Gandhi” de Richard Attenborough retrata com impactante dramaticidade os desdobramentos desse processo histórico.

Inegavelmente Gandhi foi reconhecido como o iniciador de uma nova forma de política e de militância social. Sua figura, vestida à moda hindu, é um dos ícones do século passado. Seu legado serve de inspiração e referência para os variados militantes dos direitos civis. É nesse contexto que, não poucas vezes, destacam a incisiva crítica de Gandhi ao cristianismo. O contexto dessa crítica é o escândalo nele causado pela discrepância entre Cristo e o seu ensinamento e a respectiva conduta dos cristãos europeus com os quais conviveu, sobretudo os ingleses: frieza, hipocrisia, formalismo, falsidade. Em sua autobiografia narrou a traumática tentativa de participar de um culto protestante na África do Sul, do qual foi expulso por não ser branco! Gandhi admirava Jesus e seu Evangelho, sobretudo as bem-aventuranças, mas ficou horrorizado com os cristãos que encontrou ao longo da vida. Daí a famosa frase: “admiro Cristo, mas não admiro os cristãos pois eles não se parecem com Cristo”.

Todavia – e isso pouca gente sabe – quase no fim de sua vida, precisamente no ano de 1945, Gandhi teve notícia do impressionante testemunho do Padre Damião de Veuster (1840 – 1889), missionário católico que consumiu a sua vida na ilha de Molokai, entregando-se ao cuidado dos leprosos que para lá eram desterrados. Por fim, ele mesmo contraiu a hanseníase e morreu mártir da caridade fraterna.

Impressionado, Gandhi assim escreveu sobre o Padre Damião: “o mundo da política e do jornalismo não podem oferecer-nos um herói da estatura do Apóstolo de Molokai, o Padre Damião. Valeria a pena buscar em que fonte se alimentou tanto heroísmo”.

Em 1881, numa carta dirigida ao seu irmão, também sacerdote, escreveu o Padre Damião algo revelador: “ao pé do altar é onde encontro a força necessária nesse meu isolamento. Sem o Santíssimo Sacramento, uma colocação como a minha, não seria tolerável. Mas, possuindo Nosso Senhor junto de mim, estou sempre alegre e contente”.  Eis aí a fonte pela qual Gandhi indagou.

Se a narrativa da vida e missão do Padre Damião de Veuster bastou para impactar profundamente Mahatma Gandhi, imagine o que teria acontecido se seus caminhos tivessem se cruzado! Como teria sido diferente a apreciação de Gandhi sobre o cristianismo se ele tivesse se encontrado pessoalmente com o Padre Damião, um cristão que realmente se parecia com Cristo.

Na plataforma youtube encontram-se filmes e documentários interessantes sobre Gandhi:

Damião de Veuster:

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