domingo

, 05 de abril de 2020

Artigo de Pe. José Antonio de Oliveira
José Antonio de Oliveira, nascido aos 26 de abril de 1952, em Capela Nova, MG. Filho de Alcebíades Rodrigues de Oliveira e Maria Augusta de Oliveira. Estudos: Capela Nova, vários colégios salesianos e Mariana. Ordenado padre em Capela Nova, aos 21 de agosto de 1977.

Atualmente, pároco de São João Batista, em Barão de Cocais, e acompanhando o Conselho do Laicato da Arquidiocese de Mariana.

Libertação ou prosperidade?

11 de outubro de 2019 Pe. José Antonio de Oliveira

Há 50 anos, Gustavo Gutiérrez publicava seu livro “Rumo a uma teologia da libertação”. Enquanto na Europa e na América do Norte muitos se preocupavam com a crescente secularização, um grupo de teólogos entendia que, na América Latina, o grande desafio era a falta de humanidade, a ditadura, a miséria crescente, a exploração dos mais simples; uma multidão de oprimidos.

Preocupava saber que governos totalitários e opressores, empresários inescrupulosos agiam com a conivência ou até mesmo o apoio da própria Igreja. A religião, em vez de colaborar com a libertação, era usada para anestesiar as consciências e legitimar atitudes radicalmente anticristãs.

Essa preocupação encontrou eco e descobriu novos caminhos com a realização das Conferências do Episcopado Latino-americano em Medellín (1968) e Puebla (1979). Ante o espanto de muitos e a alegria de tantos outros, a Igreja assume publicamente sua opção preferencial pelos pobres e seu desacordo profético com um sistema que pisava a dignidade da maioria do povo.

Era assim gestada uma nova teologia, atenta à libertação integral do ser humano. Libertação não só do pecado, mas de tudo o que oprime e degrada a pessoa. Teologia que não brotava da cabeça de alguns pensadores, mas do próprio Deus da Aliança, que se dirigia a Moisés dizendo que ouviu o clamor do seu povo e desceu para libertá-lo (cf. Ex 3,7), e de Jesus Cristo que, na sinagoga de Nazaré, afirmava ser ungido e enviado pelo Pai para evangelizar os pobres e proclamar a libertação (cf. Lc 4,18). Inspirava-se também no próprio Concílio Vaticano II e no ensinamento de Paulo VI, sobretudo em sua Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi.

Infelizmente, alguns elementos prejudicaram o florescer dessa nova teologia. Primeiro, o fato de alguns dos seus expoentes lançarem mão da análise marxista da história e de outras teorias sociopolíticas. Depois, o poder político e econômico do imperialismo norte-americano e de grandes empresários. E, por fim, o medo do então Papa, João Paulo II, de que o comunismo ateu penetrasse na Igreja, uma vez que tanto sofrera com esse regime na Polônia.

Essa preocupação é revelada na Instrução sobre alguns aspectos da teologia da libertação, de 1984, redigida pela Congregação para a Doutrina da Fé. Como seu conteúdo se fixou quase que exclusivamente na crítica negativa à Teologia da Libertação, o que não correspondia à realidade, foi então elaborada uma segunda Instrução sobre libertação cristã e libertação, em 1986, onde a Congregação vaticana reconhece que a teologia não podia ser neutra, “mas devia se atualizar com uma solidariedade efetiva, pondo-se do lado dos oprimidos e dos pobres”, como diz Gianfranco Ravasi, Prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura, que afirma ainda: “Não se deve ignorar que os eventos fundadores da fé bíblica, como o êxodo de Israel da escravidão do Egito e o próprio anúncio e a obra de Cristo, movem-se ao longo dessa trajetória”.

De fato, a Bíblia e a prática de Jesus nos ensinam que nossa fé não pode ser intimista e desencarnada, mas deve estar a serviço de valores como o cuidado e o respeito pela vida, a dignidade da pessoa, a justiça. E é nessa linha que está toda a pregação, bem como o testemunho do Papa Francisco. É nisso que ele tem insistido tanto.

Contudo, apesar de todos os seus esforços, preocupa-nos o crescimento, nos meios eclesiais e na política, de uma onda neoliberal e conservadora, no sentido mais negativo das expressões. Alguns chegam a chamar esse movimento de teologia da prosperidade, embora não possamos dizer que isso seja uma teologia, pois é antiética e antievangélica. Essa ‘teologia’ defende que a riqueza e os bens materiais são sinais de bênção de Deus, enquanto a doença e a pobreza são sinais de maldição. Ora, isso contradiz totalmente o ensinamento de Jesus. Ele revela que “são bem-aventurados os pobres” (Lc 6,20) e que a fé deve nos levar à partilha, nunca à acumulação. Essa mentalidade está explodindo nos meios neopentecostais e na política. É um sinal de alerta.

O Deus da nossa fé se revela em Jesus Cristo, que se faz pobre com os pobres, leva uma vida simples, vem para libertar e salvar, escolhe servir em vez de ser servido, dá a vida e dá vida a todos.

Pe. José Antonio de Oliveira

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