Arquidiocese de Mariana
Atingidos pelo Rompimento das Barragens

11/set/2014
Em busca da paz

Dom Leonardo Steiner - André Correa (2)

 

Em entrevista ao Jornal Pastoral, o secretário geral da CNBB, Dom Leonardo Steiner, fala sobre a realização do Ano da Paz e sobre como as comunidades podem ajudar a construir as bases estabelecidas pela CNBB para a sua realização. Durante a 52ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a proposta foi aprovada, por unanimidade. O ano da paz terá início no primeiro domingo do Advento (30 de novembro de 2014) e vai até o Natal de 2015. De acordo com Dom Leonardo, o aumento da violência dá a sensação de relações quebradas. e sobre como as comunidades podem ajudar a construir as bases estabelecidas na proposta da CNBB.

PASTORAL: Durante a 52ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, foi aprovada, por unanimidade, a realização do Ano da Paz em 2015. O que motivou, essencialmente, esta escolha?

DOM LEONARDO: Os bispos reunidos no Conselho Permanente e no Conselho Episcopal de Pastoral – CONSEP da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB vinham refletindo sobre a realidade da violência. Violência vista e experimentada na morte de pessoas, na corrupção, na justiça com as próprias mãos, na falta de diálogo, na insistência da diminuição da maioridade penal, nas manifestações e destruição do patrimônio público e particular. Havia a percepção de que relações fundamentais foram rompidas. Assim, o Conselho Permanente sugeriu aos bispos reunidos em Assembleia Geral um ano de reflexão e ação na busca de relações que conduzem a uma convivência justa e fraterna, isto é, de paz.

PASTORAL: O que a CNBB entende como violência? As relações entre as pessoas estão deterioradas por um sentimento de violência?

DOM LEONARDO: A CNBB busca expressar a realidade em que vivemos. Vivemos no meio da violência. A palavra violência vem de vis+lentus que pode ser dito como o uso contínuo da força. Pois vis quer dizer força e lentus contínuo. A ação contínua da força. As reflexões feitas nos ajudaram a perceber alguns elementos importantes quando se usa continuamente a força. A violência não acontece por acaso. Ela é uma reação. Reação às relações fragmentadas, à falta de justiça, à valorização distorcida do conforto e da necessidade de bens, ao uso da força e do poder, ao individualismo crescente, à desintegração da família, à educação sem valores, à exacerbação da própria violência nos meios de comunicação, à falta de formação da pessoa. Além disso, vemos a violência no trânsito, a violência nas casas, a violência com o povo de rua. A violência salta aos olhos! Salta aos olhos a necessidade como cristãos de ajudarmos na promoção das relações e valores que conduzam a uma convivência de irmãos.

PASTORAL: O que deve ser promovido pela CNBB neste ano da Paz, e em que medida as comunidades podem trabalhar para ajudar na construção dos objetivos estabelecidos?

DOM LEONARDO: Vamos aproveitar os diversos meios que temos à disposição para promover a paz. Os folhetos litúrgicos poderiam abordar durante um ano diversos aspectos relacionados com uma convivência de irmãos e irmãs. Os meses temáticos, como mês vocacional, mês da Bíblia, mês missionário, poderiam trazer à luz outros aspectos que podem lançar luz sobre a necessidade de justiça, paz, oportunidade, fraternidade. Provavelmente, teremos um dia no próximo ano em que manifestaremos publicamente nas ruas o nosso desejo de paz. Não será criando mais leis que viveremos como irmãos e irmãs.

Em busca da Paz

PASTORAL: Nos últimos anos, estamos acompanhando um aumento da violência que se baseia no fazer “justiça com as próprias mãos”. Como o senhor vê o aumento deste tipo de violência e como combatê-la?

DOM LEONARDO: As pessoas têm a sensação de que não há justiça. Existe uma sensação de impunidade diante do desvio do dinheiro público, do beneficiar-se da coisa pública, das mortes, da veiculação contínua do mais forte como o herói que sobrevive matando os outros. Existe um vazio de valores vitais que despareceram na educação familiar e escolar. Essa sensação desperta para a violência. Mas, a violência não se combate com a violência. A violência é vencida pela não violência, como entrevemos em Jesus na cruz. A fé desperta para uma proximidade e acolhida que supera a força dos violentos. Os mártires e as mártires, os promotores da paz não conhecem a força. Levam a força do Reino de Deus!

PASTORAL: O Papa Francisco tem sido um pregador assíduo de uma paz possível entre os povos. Uma paz para todos. Qual a mensagem que o senhor deixa para cada cristão, leigo e religioso, que sirva como incentivo para a construção deste “caminho da paz”?

DOM LEONARDO: “Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus”, nos diz Jesus no Evangelho de Mateus. Os filhos e filhas de Deus são promotores e construtores da paz. Promover, construir é uma ação; uma ação que é uma relação. Relação perpassada pela suavidade e dignidade da filiação divina. Essa relação deixa tudo e a todos na sua espacialidade própria, na convivialidade própria. Perdemos a urbanidade; dar a vez ao outro. Poderíamos começar com o mais simples e mais próximo: na nossa família, na nossa comunidade, no nosso lugar de trabalho. Promover a paz, isto é, relações novas, segundo o Evangelho. A paz se constrói com a fragilidade de nossos gestos, palavras e proximidade. O cristão é uma pessoa com a força e a suavidade do Espírito, como o modo da convivência de Jesus. Não podemos desistir da paz, mas persistir no caminho da paz.