Arquidiocese de Mariana
Atingidos pelo Rompimento das Barragens

03/dez/2015
“Senhor, o que fizerdes de mim, eu vos agradeço!”

No último dia 1º de dezembro, em diversos países e localidades, deu-se início à celebração do centenário de morte do beato irmão Carlos de Foucauld. Talvez muitos não saibam, mas se trata de uma das maiores referências do mundo moderno em termos de espiritualidade, juntamente com Francisco de Assis e Teresinha do Menino Jesus.

Nascido na alta burguesia francesa, perdeu os pais ainda criança. Formado num ambiente intelectual, entrou para a vida militar e gastou toda a fortuna numa vida irresponsável. Em viagem a Marrocos, aos 28 anos de idade, é tocado pela fé dos muçulmanos e por sua vida de oração. Como era de família católica, e certamente recebera algumas sementes do Evangelho, começa a refletir sobre a existência de Deus: “Meu Deus, se existis, fazei que vos conheça”.

Aos poucos, vai sentindo brotar no coração um profundo encantamento pela pessoa de Jesus. Então vai à fonte. Passa um bom tempo em Nazaré, tentando descobrir como foi a vida escondida de Jesus naquele lugar tão pobre e escondido. E começa a refletir: será que os trinta anos que Jesus passou ali, escondido de tudo, levando uma vida tão pobre e humilde, foram inúteis? Foi perda de tempo?

Plenamente convertido e apaixonado por Jesus Cristo, torna-se monge na Síria e depois jardineiro no Convento das Clarissas de Nazaré. É ordenado padre já com 43 anos de idade. Mas seu desejo era ir mais longe. A intensa vida de contemplação o leva a perceber que o essencial é tornar-se irmão do próximo, sobretudo do mais pobre. Uma das suas regras de ouro passa a ser: “o que fizestes ao menor dos meus irmãos, a mim o fizestes” (Mt 25,40). Assim, torna-se um eremita e vai para o deserto do Saara, na Argélia. Ali, torna-se amigo e irmão dos Tuaregues, um povo nômade, desprezado, marginalizado e temido. Percebe que a contemplação não se dá somente numa igreja ou diante do Santíssimo, mas sobretudo no meio do povo sofrido e excluído.

Não vai com o intuito de converter ninguém, mas apenas com o desejo de estar com eles e partilhar a vida. Aprende sua língua, seus cantos e orações. Torna-se pobre entre os pobres. Aos poucos vai compreendendo o grande significado do mistério da Encarnação. Aprende que, mais do que pastores, agentes, mestres, pregadores, somos chamados a ser irmãos dos outros. Repetia sempre: “Lembra-te que és pequeno”. E ensinava com a vida a buscar o “último lugar”, a se esvaziar como Jesus (cf. Fl 2,6-7), a aceitar que os outros “são superiores”, e que não devemos “buscar o próprio interesse, mas o interesse dos outros” (Fl 2,3-4).

Procura mostrar em palavras e com a vida a centralidade de Jesus Cristo: “Você tem um único modelo. Não procure outro”. E que o testemunho é a melhor pregação. Daí o seu lema: “Gritar o Evangelho com a própria vida”. De fato, as pessoas podem até se lembrar de coisas que falamos ou ensinamos. Porém, quando partimos, o que ficará mesmo marcado será a maneira como nós as tratamos. Poderão aprender conosco sobre Jesus Cristo, mas a imagem que ficará dele dependerá muito mais das nossas atitudes de misericórdia, acolhimento, respeito, cuidado, gratuidade, solidariedade.

O irmão Carlos foi assassinado no deserto no dia 1º de dezembro de 1916. Aliás, o deserto é uma das marcas da sua espiritualidade. Lugar da aridez e da vida escondida. Lugar da experiência de Deus e do encontro consigo mesmo. Quando não se tem muita coisa para ver é mais fácil olhar para dentro. Se não há o barulho externo fica mais fácil ouvir o coração e ouvir o próprio Deus. O deserto provoca a sede, a fome, a busca, a falta que faz falta.

Morreu só, sem deixar um seguidor sequer. Escondido e, aparentemente, fracassado. Como Jesus. Mas tinha deixado escrito: “Quando o grão de trigo caído na terra não morre, permanece só”. Se morrer, dá muito fruto. Eu não morri, também estou só… “Rezem por minha conversão, a fim de que, morrendo, eu dê frutos”.

E os frutos vieram. Um testemunho tão forte não ficaria escondido por muito tempo. Seu sonho de ‘fraternidade’ e de ‘amor aos pobres’ encontrou eco em muitos corações. Aos poucos foram surgindo muitos que se encantaram com o seu jeito simples e prático de viver a espiritualidade cristã, acreditando que “Jesus só merece ser amado apaixonadamente”. Hoje são 19 famílias religiosas que seguem seus passos e inspiração, entre religiosas/os, leigos, fraternidades e movimentos na Igreja. No dia 13 de novembro de 2005 foi beatificado por Bento XVI.

Vale a pena conhecer e rezar todos os dias a “Oração do abandono” que ele nos deixou.

Pe. José Antônio de Oliveira

   

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