Falando sobre os ritos iniciais na Celebração Eucarística - II

17/11/2016 às 08h42

A celebração litúrgica como um todo é uma ação simbólica e ritual, por isso, quem preside deve aprender a executá-la com atitude afetuosa e espiritual, de forma que transpareça que o sujeito desta ação é Deus. É Ele quem nos convoca, para que reunidos em seu nome e com Ele, celebremos o Memorial de sua Páscoa, uma aliança de amor e compromisso.

Os Ritos Iniciais da Celebração Eucarística são um conjunto de vários elementos que tem a finalidade de constituir a Assembleia Litúrgica, formar um “corpo comunitário” celebrante, movido pelo Espírito Santo, não um amontoado de pessoas anônimas, acéfalas, informes e dispersas.

No artigo anterior ressaltei a dimensão da acolhida que os Ritos Iniciais exercem na celebração Eucarística. Aproveito para lembrar a necessidade de que cada comunidade organize uma equipe, que exerça o “ministério” da acolhida nas celebrações, cuidando do espaço (água, som, banheiros, acomodações para grávidas, idosos e deficientes) e cumprimentando as pessoas que chegam para a celebração, manifestando através do olhar, sorriso, da saudação e da ternura, o carinho e a alegria de Deus àqueles (as) que chegam (Cf. Ministérios Particulares, IGMR 68). Isto, também ajuda constituir a assembleia litúrgica. Vejamos agora outros elementos:

A Procissão de Entrada indica que a Igreja é peregrina neste mundo rumo à casa do Pai, assembleia Cristã que se dirige ao altar do Senhor, para louvá-Lo e suplicá-Lo. No segundo milênio, assumiu-se uma forma processional solene circundada por tanta pompa, que sua função meditativa ficou comprometida. Hoje se busca isentá-la de suntuosidade, sem perder seu aspecto nobre e majestoso, na dignidade do seu simbolismo, uma Igreja fraterna e solidária, de comunhão e participação, toda ministerial, um sinal profético de antecipação do Reino.

O caminhar processional não é uma andar comum, mas cadenciado e harmonioso, percorrendo, pelo menos, uma parte do lugar destinado aos fiéis. Nas missas solenes observemos a seguinte ordem: encabeçando a procissão vão os turiferários, segue-se o crucifixo com a cruz, a qual ficará junto ao altar ou sobre ele, servindo como cruz da celebração; ladeando o crucífero, os ceroferários com as velas acesas. Atrás dele, virá o leitor ou diácono, com o Evangeliário um pouco elevado. Segue-se, por fim, o presidente, precedido, conforme o caso, pelos outros ministros ordenados e, com ele, eventualmente, um segundo diácono (Cf. IGMR 82). Caso o bispo presida, quem vai cuidar da mitra e do báculo durante a celebração, irá atrás dele. Numa celebração doméstica, porém, onde o espaço celebrativo seja mais restrito, pode suprimir procissão.

No Brasil, como forma de inculturação, faz-se também o uso de símbolos na procissão de entrada. O símbolo comunica num nível mais profundo do que as palavras, do que o discurso. Tem também a capacidade de nos conectar com Deus, com a vida que celebramos e com o compromisso que assumimos. Devemos tomar cuidado com os excessos, usar símbolos que a liturgia já tem de si mesma, não necessitando explicação para lhes dar um sentido, que eles sejam autênticos e de preparar um local adequado para colocá-los.

Após a procissão de entrada temos alguns elementos significativos, a saudação ao altar, através dos gestos de inclinação (ou genuflexão, caso o SS. Sacramento seja conservado no sacrário próximo ao altar), beijo e incensação (em circunstâncias solenes) (Cf. IGMR 84).

Primeiro o presidente saúda o altar, que conforme Santo Ambrósio simboliza o próprio Cristo: “ara Christus est”. O prefácio IV do tempo pascal acentua a riqueza desse simbolismo quando diz “Entregando-se a Vós pela nossa salvação, revelou-se, ao mesmo tempo, sacerdote, altar e cordeiro”.

A Inclinação ou genuflexão fazem parte de um mesmo universo significativo, expressam o respeito, amor, humilhação, pequenez e submissão (Cf. Fl. 2,7-8). O beijo no altar ao amor respeitoso a Cristo, amor que nunca deve ser traído (caso de Judas). A incensação exprime adoração e é sinal da oração que sobe a Deus, antes mesmo de ser verbalizada. Lembra também que “nós somos o bom odor de Cristo” (2Cor 2,15).

A Celebração eucarística nos faz mergulhar no Nome de Deus, ou seja, lembra a nossa dedicação total e consagração exclusiva a Ele, por isso, logo após os gestos de saudação ao altar o presidente inicia com o sinal da cruz (Cf. IGMR 86). A invocação do Nome divino significa, que tudo o que o presidente da celebração faz é realizado em nome do seu Senhor, ou seja, ele se apoia, em sua condição e instrumento, na autoridade recebida. Sinaliza também para o fato de que a missa começa na Trindade, é uma teofania a Trindade em nossas vidas. A expressão grega “eis tó ónoma” (= em nome) sugere a ideia de movimento: mergulhemos no Nome, vamos para dentro do Nome. “Marcar com a cruz é anular o sentido egoísta de uma ação; é liberá-la e deixa-la disponível para um dinamismo novo, trinitário” (SCHÖKEL, L. Alonso. Meditações bíblicas sobre a Eucaristia).

Trocando experiências: O objetivo principal dos Ritos iniciais é transformar os indivíduos em povo celebrante, assembleia orante, corpo de Cristo animado por seu Espírito, disposto para o encontro Pascal e transformador com o Deus vivo. Como vivemos nossa experiência eclesial? Até que ponto acompanhamos os passos da Reforma Litúrgica? No artigo anterior eu falava do Rito como expressão de acolhida. As pessoas se sentem acolhidas em nossas assembleias? O que fazer para que sintam o prazer de se unir, cantar e orar juntos? Nossas missas têm ar festivo? Como vencer a “verborragia” (hemorragia de palavras) ou “pseudo-homilias”, nos ritos iniciais?


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