Igreja Matriz de Nossa Senhora de Nazaré. Foto: Plinio Cintra.
A Igreja Matriz de Nossa Senhora de Nazaré e a Igreja de Nossa Senhora Rosário, localizadas no distrito marianense de Santa Rita Durão, serão integralmente restauradas. A Arquidiocese de Mariana, o Ministério Público do Estado de Minas Gerais (MP-MG) e a Samarco Mineração S.A. firmaram um acordo em 22 de setembro. Este acordo se refere ao custeio dos projetos e das obras que será assumido pela mineradora.
Ainda não é possível apontar o custo total, mas o Termo de Compromisso define que o valor do repasse será conforme os custos apurados nas planilhas orçamentárias, limitados até R$ 1,2 milhão de reais para projetos e até R$ 30 milhões para execução das obras.

Lateral da Igreja de Nossa Senhora do Rosário em 2015. Foto: Sidnéa Santos.
Os valores a serem repassados através da Plataforma Semente do MP-MG serão exatos aos custos apurados até os limites estabelecidos. A Arquidiocese de Mariana espera, em breve, contratar todos os projetos necessários às obras civis, inclusive complementares, e de restauração de elementos artísticos e bens integrados.
O anúncio da destinação de recursos para a restauração das duas igrejas foi recebido com entusiasmo pela comunidade local. A decisão é vista como um marco histórico para a Paróquia Nossa Senhora de Nazaré, que há anos aguardava pela recuperação desse patrimônio inestimável.

Crianças da Catequese em frente a Matriz de Nossa Senhora de Nazaré, em Santa Rita Durão. Foto: Reprodução Instagram Paróquia Nossa Senhora de Nazaré.
Segundo o Administrador Paroquial da mencionada paróquia, Pe. Jorge Henrique Abreu Tanus, as obras permitirão valorizar o patrimônio religioso, artístico e histórico, garantindo que os fiéis possam continuar vivendo sua devoção à Virgem Maria.
“Com grande alegria acolhemos a notícia da destinação de recursos financeiros para a restauração das igrejas. É um momento importante e histórico da comunidade paroquial, que há anos aguardava a restauração, em especial da Igreja de Nossa Senhora do Rosário”, destacou o sacerdote.

Pe. Jorge Tanus em frente a Matriz de Nossa Senhora de Nazaré, durante a Semana Santa de 2025. Foto: Reprodução Instagram Paróquia Nossa Senhora de Nazaré.
A Matriz de Nossa Senhora de Nazaré é um dos exemplares mais expressivos do barroco mineiro e guarda importantes contribuições de artistas que marcaram o século XVIII, entre eles, Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.
Embora sua participação esteja associada às talhas de retábulos e elementos do interior do templo, a obra se destaca como parte do vasto legado deixado pelo mestre em Minas Gerais.

Foto: Plinio Cintra.
A igreja, cuja construção primitiva remonta a 1729, foi reedificada ao longo da segunda metade do século XVIII. Os registros históricos revelam que a capela-mor encontrava-se em ruínas por volta de 1780, quando o mestre de obras José Pereira Arouca e seu sócio Manoel José Belas foram chamados para emitir um laudo sobre sua conservação.
O parecer apontava sérios danos: paredes de pau-a-pique deterioradas, talhas presas por correias e cordéis e janelas sem condições de proteger o interior. Diante disso, a irmandade do Santíssimo Sacramento encomendou de imediato a planta e o risco da nova capela, dando início a um processo de reconstrução que envolveria grandes nomes da arte colonial.

Foto: Plinio Cintra.
No campo da pintura, coube a João Batista de Figueiredo, um dos mais conceituados pintores do período, a execução das obras do forro da nave e da sacristia. Ele é autor do famoso painel central que retrata o Milagre de Nazaré, em perspectiva ilusionista de gosto rococó, além das representações dos apóstolos Pedro e Paulo, São Tomás de Aquino, São Boaventura e os quatro doutores da Igreja. Já o retábulo-mor, concluído em 1794, é atribuído a Antônio Tavares e segue o modelo característico do estilo Dom João V.
Erguida no século XVIII, em data imprecisa, a tradição local atribui sua construção ao Sargento-Mor Paulo Rodrigues Durão, por volta de 1729. Mais tarde, estudiosos como Germain Bazin sugeriram que a edificação tenha sido concluída na segunda metade daquele século.
De fachada singela e estilo “mineiro primitivo”, com elementos que remetem ao rococó, o templo recebeu tombamento pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 1945, sendo reconhecido como patrimônio de relevância histórica e artística.

Fachada da Igreja de Nossa Senhora do Rosário em 1980. Foto: Renato Morgado.
Com estrutura, feita de madeira, adobe e pau-a-pique, suas principais singularidades são os corredores laterais em arco, que criam a impressão de três naves, e os altares dedicados a Santa Efigênia e São Benedito. O de Santa Efigênia, em especial, é atribuído a Aleijadinho, sendo considerado um dos primeiros entalhes do mestre, com traços ainda arcaicos, mas já marcados pela força expressiva de suas figuras.
O interior da igreja é ricamente decorado, com madeiras entalhadas que imitam mármore em tons de azul, branco, vermelho e dourado. No forro, as pinturas dialogam com o estilo rococó, reforçando a harmonia do espaço sagrado.
A Igreja do Rosário esteve intimamente ligada à antiga irmandade de pretos do distrito, que promovia festejos em honra à padroeira. Documentos de 1764 já registravam a eleição de reis festeiros e a arrecadação de esmolas para a realização das celebrações, muitas vezes marcadas pela presença do Congado e pelas tradicionais procissões.

Altar lateral da Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Foto: Sidnéa Santos.
Informações históricas: Iphan; Compat Mariana; Iepha; Conheça Minas; MD Arquitetura e consultoria Levantamento Histórico – Projeto de Restauração Arquitetônica da Igreja Nossa Senhora do Rosário; JOSÉ PEREIRA AROUCA, UM CONSTRUTOR NA MARIANA SETECENTISTA: entre arrematações, “monopólios” e redes de sociabilidades (1753-1800) – Mônica Maria Lopes Lage; A Obra de Talha em Minas Gerais Necessidade de Pesquisa e de Estudo – Augusto Carlos da Silva Telles.