Repleta de fiéis e devotos, a Igreja Nossa Senhora do Rosário, em Mariana (MG) foi o local escolhido para a realização do Sermão do Pretório, na Segunda-feira Santa, 30 de março, proferido pelo Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Goiânia e filho da Arquidiocese de Mariana, Dom Danival Milagres Coelho.
Para anteceder a explanação do Sermão, a cerimônia iniciou-se com a Santa Missa na Catedral da Sé, celebrada pelo nosso Arcebispo Dom Airton José dos Santos, concelebrada pelo Reitor, Pe. Geraldo Dias Buziani e pelo Vigário paroquial da Paróquia Sagrado Coração de Jesus, Pe. Jean Lúcio de Souza.

Em sua homilia, Dom Airton refletiu sobre o Evangelho de João, o qual narra a visita de Jesus à Marta, Maria e Lázaro, e Maria lava os pés do Mestre com perfume e a inveja de Judas em relação a atitude de Maria.
Nesse sentido, o prelado faz uma analogia entre a traição de Judas e o julgamento injusto de Jesus feito pelo poder humano a uma Deus que veio ao mundo para salvar a humanidade, já se referindo ao Sermão do Pretório proferido após a procissão.
“O que nós vamos ouvir hoje de modo muito claro, muito evidente, é a injustiça, o julgamento injusto que foi realizado contra nosso Senhor por um poder humano, veja como é absurdo. O poder humano julgou aquele que é divino, criador de todas as coisas. Aquele que veio para salvar, não para condenar, mas para salvar”.
Após a celebração, a imagem do Senhor dos Passos foi levada, em procissão, pelas ruas históricas da cidade até a Igreja do Rosário e durante o percurso, os fiéis elevaram seus cânticos e orações a Deus, com suas insígnias de devoção.
Ao chegar ao templo, cada um procurou se acomodar da melhor forma para não perder a reflexão alusiva do Sermão do Pretório.
Dando prosseguimento, Dom Danival centrou-se no julgamento e condenação de Jesus, analisando os eventos no Sinédrio e no Pretório diante de Pilatos. A reflexão principal é que o julgamento de Cristo espelha o julgamento da própria humanidade e o Bispo convida a todos à autoanálise sobre a nossa fé, nosso testemunho e nossa postura diante da verdade e da justiça em face das estruturas do pecado contemporâneo.
Para tanto, Dom Danival relatou dois momentos cruciais antes de levarem Jesus à Pilatos: A primeira foi uma reunião no Sinédrio, após a ressurreição de Lázaro, em que sacerdotes e fariseus debatiam suas preocupações religiosas e políticas, decidindo que “é melhor que um morra pelo povo do que perecer a nação inteira” (João 11,53), revelando medo e ambição de poder.

O segundo é o primeiro Julgamento no Sinédrio, em que Jesus foi interrogado sobre o Templo, sendo acusado falsamente de querer destruí-lo e construí-lo em três dias, e de sua identidade messiânica.
“E depois, os seus acusadores levaram-no ao Pretório, diante de Pilatos, apenas para chancelar politicamente, o que as autoridades do Templo já tinham decidido”, destacou Dom Danival.
Segundo o Bispo, Jesus separou as dimensões religiosa e política, vindo inaugurar o Reino de Deus, revelando-se como Messias sofredor. Diante das acusações falsas e da blasfêmia, Jesus permanece em silêncio, não por fraqueza, mas como expressão de obediência ao Pai e por amor à humanidade, cumprindo as profecias do “servo sofredor”.
Pedro, por outro lado, nega Jesus por medo, revelando a fragilidade humana em contraste com a fidelidade de Cristo.
“Pedro estava acompanhando à distância, ficara no pátio, mas tomado pelo medo, movido não mais pela revelação do Pai, mas por sua humanidade frágil, por isso ele nega ser discípulo de Jesus”.
Dom Danival questionou-nos:
“E nós, queridos irmãos e irmãs, que tipo de testemunha somos de Jesus? De qual Jesus nós temos sido discípulos? O nosso testemunho a respeito de Jesus tem sido verdadeiro ou falso? Em ambientes onde reina a mentira, temos a coragem de testemunhar a verdade?”

Diante disso, o orador ressaltou o debate da Campanha da Fraternidade (CF) deste ano, a qual traz o tema “Fraternidade e Moradia” e crítica à indiferença diante de irmãos condenados à morte por condições indignas, estruturas de pecado, como a pobreza, a desigualdade social, as guerras, a violência, o crime organizado, o tráfico de drogas, o sistema carcerário falho, a falta de moradia digna, à impunidade e corrupção no poder público.
Mas voltando ao Pretório, Dom Danival expôs que os acusadores levaram Jesus a Pilatos para que fosse condenado à morte de cruz, a morte “mais infame”, para ser considerado “maldito” e não atrair mais seguidores (Deuteronômio 21,22-23).
Porém, Jesus, com seu amor, transforma o símbolo da maldição – a cruz – em sinal de salvação e o julgamento revela o pecado da humanidade, que prefere as trevas à luz, rejeitando Jesus e o amor de Deus. E, Pilatos, mesmo declarando “não encontro n’Ele crime algum”, cede à multidão e lava suas mãos. Ele sabia a verdade, mas o medo de perder o poder o impediu de agir justamente.
Dom Danival faz uma similaridade entre a cegueira de Pilatos e a de todos nós.
“Diante do julgamento de Jesus, nós nos tornamos cegos, pois a pior cegueira não é a física, mas a espiritual, quando, mesmo vendo a verdade, não a queremos conhecer e amá-la. Eis a nossa cegueira, por rejeitarmos a luz e preferirmos as trevas e quando não acolhemos Jesus e o rejeitamos querendo condenar a morte de cruz.
Santo Ambrósio de Milão, interpreta o julgamento de Jesus como um momento em que se revela a injustiça do mundo diante da justiça de Deus. Para ele, as autoridades que condenam Jesus representam uma humanidade que rejeita a verdade”, frisou Dom Danival.

Com isso, o Bispo salientou que Jesus não foi condenado por culpa própria, mas assumiu a culpa da humanidade.
Em seu discurso, ele relatou que Pilatos apresentou Jesus humilhado e flagelado, coroado de espinhos tentando “encontrar uma solução intermediária”. No entanto, João Evangelista constrói seu relato com uma profundidade simbólica que vai além da intenção de Pilatos, o qual Jesus assume a condição humana extrema, incluindo o sofrimento e a rejeição.
Contudo, a condenação de Jesus revela sua realeza paradoxal, o portador dos pecados da humanidade, o espelho da consciência humana e a dimensão litúrgica e pastoral, em que a Igreja é convidada a reconhecer em Cristo, o rosto sofredor da humanidade e o caminho da verdadeira vida.

Dom Danival finalizou sua explanação ressaltando que o pretório continua existindo atualmente, e o julgamento de Cristo se repete em cada geração quando a “verdade é sacrificada por conveniência, quando preferimos o conforto à justiça e quando seguimos a multidão em vez da consciência iluminada por Deus”.
Para o Bispo Auxiliar, a pergunta “o que faremos com Jesus?” persiste.
“No pretório vemos a injustiça humana, a fraqueza dos poderosos e a instabilidade das multidões, mas acima de tudo vemos o amor de Deus, porque aquele que foi condenado, foi capaz de transformar a sua sentença num ato de amor, oferecendo a própria vida pela salvação do mundo”.
Ele concluiu exortando a todos à conversão e a não se conformar com este mundo, mas a renovar a maneira de pensar e de julgar (Romanos 12,2), além de viver os valores do Evangelho: verdade, justiça e honestidade.
Contudo, para Dom Danival, a fé cristã convida a ser uma presença compassiva, solidária e profética, seguindo o exemplo de Cristo, que padeceu pela humanidade, não retribuiu injúrias e entregou sua causa a Deus, “carregando nossos pecados para que vivamos na justiça”.
Texto: Dacom/Arquidiocese de Mariana
Fotos: Sarah Corrêa e Pedro Victor
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