A elevação da então Diocese de Mariana à condição de Arquidiocese, em 1º de maio de 1906, que neste ano comemora 120 anos, representa um dos acontecimentos mais relevantes da história religiosa e institucional de Minas Gerais e do Brasil. Por meio do documento pontifício Sempiternam Humani Generis, promulgado pelo Papa São Pio X, a antiga diocese mineira, fundada em 1745, tornou-se sede metropolitana da primeira Província Eclesiástica do estado. Tratava-se de um reconhecimento solene à trajetória histórica de Mariana, primeira diocese de Minas Gerais e uma das mais antigas do país, profundamente ligada ao processo de formação cultural, social e espiritual da nação brasileira.
A Diocese de Mariana nasceu em pleno contexto do ciclo do ouro, quando Minas Gerais despontava como uma das regiões mais importantes da colônia portuguesa. A criação da diocese, ainda no século XVIII, já demonstrava a necessidade de organizar a vida religiosa em uma área de rápido crescimento populacional e econômico. Ao longo dos anos, Mariana consolidou-se como centro irradiador da fé católica, da educação, da arte sacra e das relações sociais. Sua elevação à Arquidiocese, portanto, não foi apenas uma mudança administrativa, mas o reconhecimento de sua centralidade histórica e eclesial.
No campo religioso, a nova Arquidiocese assumiu a missão de reunir e coordenar dioceses sufragâneas, fortalecendo a comunhão entre as Igrejas Particulares da região e promovendo uma ação pastoral mais integrada. Conforme estabelece o Direito Canônico, uma arquidiocese exerce liderança em sua província eclesiástica, incentivando a colaboração entre dioceses vizinhas e favorecendo a unidade da evangelização. Dessa forma, Mariana tornou-se referência para a organização pastoral de Minas Gerais, exercendo papel decisivo na formação do clero, na expansão missionária e no fortalecimento da presença católica em diversas regiões.
A importância de Mariana também se manifesta no fato de que, de seu vasto território original, surgiram inúmeras outras circunscrições eclesiásticas. A partir de desmembramentos totais ou parciais, nasceram arquidioceses como Diamantina, Pouso Alegre, Belo Horizonte e Juiz de Fora, além de dioceses como Campanha, Caratinga, Luz, Leopoldina, São João del-Rei e Itabira-Coronel Fabriciano. Tal realidade demonstra que Mariana foi verdadeiro berço da organização eclesiástica mineira, irradiando fé, estruturas pastorais e lideranças para todo o estado.
No aspecto histórico e social, a elevação de 1906 ocorreu em um Brasil que buscava reorganizar suas instituições no início da República. Mesmo após a separação entre Igreja e Estado, a Igreja Católica seguia exercendo grande influência moral, cultural e educativa. Nesse cenário, a criação da Arquidiocese de Mariana reafirmava a força da tradição católica em Minas Gerais e consolidava a então diocese como importante polo de liderança espiritual e intelectual.
Ao longo de sua história como Arquidiocese, Mariana contou com pastores de grande relevância. Dom Silvério Gomes Pimenta, primeiro arcebispo, destacou-se por sua inteligência, zelo pastoral e contribuição cultural. A solene imposição do pálio arquiepiscopal e a instalação da Província Eclesiástica realizaram-se no dia 06 de agosto de 1907, em cerimônia presidida pelo Cardeal Arcoverde, Arcebispo do Rio de Janeiro, por ocasião do Sínodo dos Bispos das Províncias do Sul do Brasil, realizado em Mariana.
Posteriormente, nomes como Dom Helvécio Gomes de Oliveira, Dom Oscar de Oliveira, Dom Luciano Mendes de Almeida, Dom Geraldo Lyrio Rocha e Dom Airton José dos Santos deram continuidade a essa rica missão evangelizadora, cada qual marcando seu tempo com dedicação à Igreja e ao povo mineiro.
Destarte, a elevação da Diocese de Mariana à Arquidiocese, foi o reconhecimento de uma Igreja Particular chamada a exercer liderança espiritual em tempos de transformação. Mais de um século depois, Mariana continua sendo símbolo de tradição, fé e serviço, mantendo viva a herança recebida e renovando sua missão no presente. Em artigo para a Revista Inconfientia, escreveu Dom Geraldo Lyrio: “É extraordinariamente rica a história da Arquidiocese de Mariana. Imenso é seu patrimônio histórico, cultural e artístico. Mas, o mais precioso é seu patrimônio religioso e de fé constituído ao longo de quase três séculos. A implantatio ecclesiae aqui se fez de maneira sólida, profunda e consistente. Sem dúvida, muitos são aqueles que ajudaram a escrever a bela história desta Arquidiocese. É incontável o número daqueles que se doaram, mesmo no anonimato, a esta venerável Igreja particular: presbíteros, diáconos, religosos (as) leigos e leigas.”
Padre Geraldo Trindade
Capelão na Universidade Federal de Viçosa