“A memória é um patrimônio espiritual. Recordá-la é renovar a identidade e fortalecer a fé de um povo.”
As comemorações pelos 70 anos de Dom Airton José dos Santos e pelo seu oitavo ano à frente da Arquidiocese de Mariana oferecem uma feliz oportunidade para recordar um dos mais belos acontecimentos da história de nossa Igreja Particular: a visita da imagem original de Nossa Senhora da Conceição Aparecida a Mariana, por ocasião da posse de Dom Oscar de Oliveira, em 16 de julho de 1961.
Há exatos 65 anos, Mariana viveu uma solenidade memorável. Naquela data, Dom Oscar de Oliveira assumia o governo da Arquidiocese como seu terceiro arcebispo, sucedendo a Dom Helvécio Gomes de Oliveira.
A celebração ganhou um brilho extraordinário com a presença do Cardeal Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, então Arcebispo de São Paulo e Administrador Apostólico da Arquidiocese de Aparecida. Coube a ele trazer a imagem original de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Padroeira do Brasil, para abrilhantar a posse de Dom Oscar de Oliveira, num gesto que se tornou um dos acontecimentos mais marcantes da história religiosa de Mariana.
A presença do Cardeal Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta possuía um significado que ia muito além de sua elevada posição na hierarquia da Igreja. Antes de se tornar Arcebispo de São Paulo, Cardeal da Santa Igreja Romana e Administrador Apostólico da Arquidiocese de Aparecida, ele estudou nos tradicionais seminários de Mariana e foi ordenado sacerdote nesta cidade por Dom Silvério Gomes Pimenta, primeiro Arcebispo de Mariana. Aqui recebeu sólida formação intelectual, espiritual e pastoral, lançando as bases de uma vida inteiramente dedicada à Igreja. Sua vida sacerdotal nasceu, portanto, sob a orientação de um dos maiores nomes da história da Igreja brasileira, tornando ainda mais profundo o vínculo que sempre manteve com Mariana.
Seu retorno a Mariana, trazendo consigo a imagem original de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, representava, portanto, um reencontro com a terra onde iniciou seu ministério sacerdotal.
Havia ainda outro aspecto de grande significado. Dom Carlos Carmelo cultivava uma sólida e fraterna amizade com Dom Oscar de Oliveira. Essa amizade perdurou por muitos anos e motivou diversas visitas do Cardeal a Mariana, sempre recebido com grande estima pelo Arcebispo. Sua presença na posse de Dom Oscar, trazendo consigo a imagem original da Padroeira do Brasil, foi, ao mesmo tempo, um gesto oficial da Igreja e uma expressiva demonstração de amizade, fraternidade episcopal e carinho pela Arquidiocese de Mariana.
A visita da Padroeira do Brasil coincidiu com outra efeméride igualmente importante. Naquele mesmo dia, 16 de julho de 1961, Mariana celebrava os 250 anos da elevação do antigo Arraial do Ribeirão do Carmo à categoria de Vila do Carmo, ocorrida em 16 de julho de 1711. A partir dessa data, o antigo arraial tornou-se oficialmente a Vila do Carmo, denominação escolhida em homenagem a Nossa Senhora do Carmo, demonstrando que a própria origem institucional de Mariana nasceu sob a proteção da Virgem Maria.
Ao longo de sua história, Mariana permaneceu profundamente marcada pela devoção mariana. A antiga matriz era dedicada à Nossa Senhora da Conceição, que foi padroeira da Diocese de Mariana. Posteriormente, com a elevação da matriz à condição de Catedral, o orago passou a ser Nossa Senhora da Assunção, que permanece até hoje como padroeira da Arquidiocese. Assim, a presença da imagem original de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, em 1961, representou um encontro profundamente simbólico entre as diversas invocações de Maria que acompanham a história religiosa de nossa cidade há mais de três séculos.
Segundo os registros históricos da Arquidiocese de Mariana, a imagem original de Nossa Senhora da Conceição Aparecida permaneceu exposta na Catedral da Sé durante as solenidades da posse de Dom Oscar de Oliveira, permitindo que milhares de fiéis venerassem a Padroeira do Brasil.

Concluídas as celebrações, a imagem original retornou ao Santuário Nacional de Aparecida. Em seu lugar foi colocada uma imagem peregrina, diante da qual Dom Oscar de Oliveira dedicou definitivamente o altar lateral direito da Catedral Basílica à devoção de Nossa Senhora Aparecida. Passados 65 anos, esse altar continua sendo um permanente testemunho daquela visita histórica e preserva viva a memória daquele inesquecível acontecimento.
É importante recordar que a imagem original de Nossa Senhora Aparecida raríssimas vezes deixou o Santuário Nacional. Sua presença em Mariana constituiu um privilégio excepcional concedido à primeira Diocese e primeira Arquidiocese de Minas Gerais, tornando esse episódio um patrimônio religioso, histórico e cultural de valor inestimável.
Neste ano em que se completam 65 anos da visita da imagem original de Nossa Senhora da Conceição Aparecida a Mariana, parece oportuno que a Arquidiocese promova uma celebração comemorativa desse memorável acontecimento. Seria uma bela oportunidade para agradecer a Deus pela presença da Padroeira do Brasil entre nós, homenagear a memória de Dom Oscar de Oliveira e do Cardeal Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta e transmitir às novas gerações um dos episódios mais significativos da história religiosa de Mariana.
Há um simbolismo que merece especial destaque. Em 1711, Mariana nasceu como Vila do Carmo, sob a proteção de Nossa Senhora do Carmo. Durante sua caminhada histórica, teve como padroeira Nossa Senhora da Conceição e, posteriormente, passou a venerar Nossa Senhora da Assunção como padroeira da Arquidiocese. Em 1961, recebeu a visita da imagem original de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Padroeira do Brasil. É como se a história de Mariana tivesse sido permanentemente conduzida pelas mãos maternas de Maria, sob diferentes invocações, mas sempre com a mesma presença, a mesma proteção e o mesmo amor.
Aquele encontro entre dois grandes pastores da Igreja marcou profundamente a história religiosa de Mariana. De um lado, um Cardeal que havia iniciado sua caminhada sacerdotal nesta cidade; de outro, um Arcebispo que assumia o governo da Arquidiocese. Entre ambos, a presença da imagem original de Nossa Senhora Aparecida uniu amizade, fé e história em um dos momentos mais memoráveis da vida religiosa marianense.
Preservar essa memória é um dever de gratidão. Um povo que conhece e valoriza sua história fortalece sua identidade, sua fé e seu compromisso com as gerações futuras. Que os 65 anos da visita da imagem original de Nossa Senhora da Conceição Aparecida a Mariana sejam celebrados por toda a Arquidiocese como um dos capítulos mais luminosos de sua história, renovando a fé do povo marianense e sua confiança na proteção da Mãe e Padroeira do Brasil.
Texto: Elias Layon
Fotos: Arquivo de Domínio Público