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5ª Romaria das Águas e da Terra da Bacia do Rio Doce é sinal de profecia em favor da vida

08 de setembro de 2022 Arquidiocese

O sol ainda estava raiando quando as romeiras e os romeiros começaram a chegar em Conceição do Mato Dentro (MG) para participar da 5ª Romaria das Águas e da Terra da Bacia do Rio Doce. Realizada na manhã de 04 de setembro, a peregrinação reuniu mais duas mil pessoas vindas das paróquias da Diocese de Guanhães e de toda a Província Eclesiástica de Mariana, composta pelas Dioceses de Caratinga, Governador Valadares, Itabira-Coronel Fabriciano e pela Arquidiocese de Mariana.

Com o tema “Bacia do Rio Doce, nossa Casa Comum” e o lema “Aos pés do Bom Jesus, cuidar da Mãe Terra, das Águas e da Vida”, a Romaria ecoou o clamor das comunidades de fé, que vivem ao longo da bacia do Rio Doce, em defesa da Casa Comum e da regeneração Rio. Os peregrinos caminharam pelas ruas da cidade em direção ao Santuário do Senhor Bom Jesus do Matosinhos, onde a 5ª Romaria da Bacia do Rio Doce foi encerrada como uma Celebração Eucarística celebrada por Dom Otacílio Ferreira de Lacerda, bispo da Diocese de Guanhães e referencial da Comissão para Ação Social Transformadora da CNBB Leste 2.

Dom Otacílio explica que a Romaria é um momento de fortalecimento das virtudes divinas da fé, da esperança e da caridade, sendo um grito em defesa da vida de cada pessoa e da Casa Comum. “A 5ª Romaria está em perfeita sintonia com a Igreja do Brasil, com o nosso querido Papa Francisco, com a pauta de uma Ecologia Integral, uma ecologia em que tudo está interligado e nada, absolutamente nada que façamos, é neutro”, afirma. 

Segundo o bispo, se as pessoas tratarem bem a Casa Comum terão uma sociedade do bem viver, mas se a tratarem mal, explorando as águas e as riquezas naturais em nome do lucro, terão a destruição da vida. Por isso, ele defende que a peregrinação é, sem dúvida, um momento expressivo de profecia em favor da vida.

Para a terra prometida, o povo de Deus marchou

A Romaria das Águas e da Terra da Bacia do Rio Doce surgiu após o rompimento da barragem de rejeitos da mineração da empresa Samarco (Vale BHP), em 2015, em Mariana. A sua primeira edição aconteceu em junho de 2016, no município de Resplendor, e a cada ano é realizada em um local diferente da Província Eclesiástica de Mariana.

A agente da Cáritas Diocesana de Itabira-Coronel Fabriciano, Lucimere Leão, destaca que a Romaria da Bacia do Rio Doce busca manter vivo o debate sobre a defesa das águas, dos rios e dos povos, principalmente das comunidades ribeirinhas, que, em sua maioria, não teve seus direitos garantidos desde o rompimento da barragem da mineração em Mariana. “Sabemos que, infelizmente, nossa região, principalmente a Bacia do Rio Doce, está refém de outros possíveis crimes dessas grandes empresas”, denuncia.

Em sua quinta edição, a Romaria é realizada na Diocese de Guanhães, onde se encontram as bacias do Rio Doce, São Francisco e Jequitinhonha, bem como dos biomas da Mata Atlântica e do Cerrado. Na região, é crescente a atividade minerária e prevalece a monocultura do eucalipto, causando a extinção e a degradação de inúmeras nascentes, a devastação de matas e a violação de direitos das comunidades. 

Segundo Patrícia Generoso, atingida pela mineração de Conceição do Mato Dentro, ter a Igreja e tantas vozes reunidas em resistência à mineração no município é importante para fortalecer os atingidos, tanto espiritualmente quanto para ecoar suas vozes tantas vezes criminalizadas e invisibilizadas. “Estar participando desse momento aqui é de gratidão, pois esta é a Igreja em saída que eu sempre almejei”, conta.

Bendito o povo que marcha

Recordando as pré-romarias de modo on-line, Padre Marcelo Santiago define a peregrinação como um momento para se renovar o compromisso de cuidar da mãe Terra, das águas e da vida. “Com um grito uníssono pela ecologia integral, pela regeneração da Bacia do Rio Doce, pela defesa dos atingidos e atingidas e também por uma consciência que nos move sempre mais a trabalharmos pela vida tanto a vida humana quanto à vida no planeta nossa casa comum, tivemos uma verdadeira multidão na retomada da romaria depois de dois anos por causa da pandemia da Covid-19”, conta. Entre os presentes, estavam 17 presbíteros, seminaristas, religiosos e religiosas. 

De acordo com ele, a peregrinação contou com momentos de fala, conciliando as ações da Igreja com as dos movimentos populares à luz da ecologia integral, da Laudato si’ e Fratelli tutti. “A Romaria se marca nessa esperança de que nessa empreitada, de anúncio e denúncia, nós não estamos sozinhos; o Bom Jesus caminha com seu povo.E é o olhar do Cristo, Bom Jesus, que nos faz também ter esse olhar de misericórdia, de compaixão e de solicitude diante sofrimentos tanto das pessoas quanto também do nosso planeta Terra e, para nós, o nosso olhar se volta e moto especial para nossa extensa bacia do Rio Doce”, enfatiza Padre Marcelo Santiago.

Ao final da missa, foi realizada a leitura da Carta da 5ª Romaria das Águas e da Terra da Bacia do Rio Doce e anunciada que a sua sexta edição, a ser realizada em 2023, será acolhida pela Diocese de Colatina (ES). Leia a carta AQUI

Texto: Cáritas MG com adaptações 

Fotos: Francielle Oliveira/Cáritas MG