O segundo dia do 9º Forum Social pela Vida (FSV), que está sendo realizado em Viçosa entre os dias 18 e 21 de setembro de 2025, foi marcado por duas conferências a respeito do tema e do lema do FSV que são: Tema: “Cuidar da Criação: a terra e os pobres clamam por vida, justiça e paz”. Lema: “Se eles se calarem, as pedras gritarão” (Lc19,40).
Nesse dia, os participantes foram convidados a refletirem sobre a Casa Comum em que se vive, os atores sociais responsáveis por ela e os serviços pastorais que trabalham para preservar o meio ambiente. Além de buscar recursos naturais e de preservação para reverter ações abruptas que acontecem devido às mudanças climáticas do planeta.
Após cada conferência, os depoimentos sobre projetos sociais enriqueceram o momento. Esses projetos foram implementados para a subsistência humana e da preservação da natureza, que, com muita luta e esforço coletivo, deram certo e resistem até hoje.

Padre Dario Giuliano Bossi.
Na parte da manhã, o assessor da Comissão Episcopal para a Ação Sociotransformadora da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), padre Dario Giuliano Bossi, trouxe suas contribuições acerca da missão da Igreja e da Ecologia Integral quando abordou o tema do encontro: “Cuidar da criação, a terra e os pobres gritam por vida, justiça e paz”.
O Assessor começou questionando sobre qual é a missão da igreja, o que ela tem a ver com a Ecologia Integral e o que essa Ecologia Integral tem de respostas urgentes diante da falta de preservação do meio ambiente.
A missão da Igreja, segundo ele, é ser “escola de humanidade e casa de promoção da cidadania” para acolher, valorizar as pessoas e oferecer esperança. Ela deve ecoar as alegrias, esperanças, tristezas e angústias da humanidade, especialmente dos pobres.
Segundo Padre Dário, a Ecologia Integral deve ser uma unidade, recordando o saudoso Papa Francisco, que, em seu pontificado, escolheu a ecologia integral como tema unificador para a Igreja, pois, ela conecta todos os âmbitos da vida: economia, política, sociedade, cultura e estilos de vida.
“Na encíclica Laudato Si, o Papa Francisco (in memorian) diz que a ecologia integral é a maneira de a gente viver a mensagem cristã na economia, da política, do jeito de organizar a sociedade, da cultura, e também de nossos estilos de vida, da maneira como a gente vive no dia a dia, pessoal e comunitariamente. A Ecologia Integral é a maneira, hoje, de conectar todos esses âmbitos, onde a Igreja quer ser humana e promover a cidadania”, destacou o assessor.
Além disso, ele chama a atenção para o perigo da fragmentação, para não haver uma visão parcial da realidade. Pois, para ele, dividir setores, pastorais ou ministérios empobrece a compreensão e esteriliza a ação pastoral. A Igreja é desafiada a um pensamento integral e interconectado.
Padre Dário compara os trabalhos da Igreja como um grande tecido, como uma interconexão e uma sinodalidade, cuja imagem do tecido representa a realidade como fios entrelaçados. Como exemplo, ele cita sua experiência vivida na “teia de povos e comunidades tradicionais”, como os quilombolas, os indígenas e os pescadores no estado do Maranhão. Exemplifica-se como a união, para enfrentar desafios comuns de território, de água e de economia local, é uma vivência de ecologia integral. Essa abordagem ressoa como sinodalidade, prática ancestral das pastorais sociais.

Padre Dário ressaltou as urgências do tempo presente como as mudanças climáticos que ocorrem com crescente frequência e fúria, sinalizando que o planeta “não aguenta mais”. Um desafio do século XXI é a paz com a natureza, inseparável da paz entre os povos. Muitas guerras atuais estão ligadas à exploração de recursos naturais.
O assessor conclui reiterando a existência de grandes desafios, mas, também, de muita força, memória e esperança na caminhada, com diversas ações práticas em curso, como COP30, Semana Social Brasileira, defesa dos territórios, conexão com os ancestrais e acreditar nos pequenos. Os pequenos, segundo ele, “podem e fazem muito”, eles são “semeadores de mudança” e detêm o futuro da humanidade por sua capacidade de organização e busca de alternativas.

Padre José Antônio de Oliveira.
Na parte da tarde, o pároco da paróquia São João Batista, em Matipó (MG), padre José Antônio de Oliveira, convidou os presentes para refletirem sobre o lema do encontro: “Se eles se calarem, as pedras gritarão”.
Em sua explanação, ele abordou a importância da resistência e da ação social, principalmente em relação aos mais vulneráveis da sociedade.
Como exemplo, ele contou que, “depois que Jesus fez uma grande viagem catequética, começando na Galileia, na região marginalizada, dos mais pobres, Ele vai caminhando e convocando pessoas, ensinando, falando quem ele é, o que ele propõe. Muitos vão com ele por vários motivos, mas muitos querendo, de fato, seguir, abraçar o sonho Dele, E o último lugar que ele vai é na capital para enfrentar as lideranças religiosas e políticas, os quais provocaram a morte Dele, o assassinato Dele”.
Padre José Antônio continua dizendo que, quando Jesus chega a Jerusalém, o povo O clama como Rei, mas as autoridades religiosas e políticas exigem que ele silencie a multidão, mas Jesus responde que, “se o povo calar, as pedras gritarão”. Jesus subverte a imagem de rei, pregando o serviço e a partilha, não o poder e a ostentação.
Segundo o sacerdote, as “pedras” não são para destruir, mas para acordar e despertar. Ele cita o desafio entre Davi e Golias, uma pequena pedra derrubando um gigante; Jesus e a mulher adúltera, a “pedrada na consciência” para aqueles que se diziam sem pecado; o apedrejamento de Estêvão, que teria influenciado a conversão de Saulo, o qual se tornou um apóstolo fervoroso de Cristo.
Padre José Antônio cita São Francisco de Assis como uma “pedra bonita” que, ao renunciar a tudo, denunciou a ostentação da Igreja e iniciou o sonho da fraternidade universal e da Ecologia Integral.
“E há muitas pedras que atiramos, às vezes, que não são pedras para destruir, mas para construir, para acordar, para despertar as pessoas. A Bíblia fala de pedra de tropeço, mas também de pedras vivas”, destacou Padre José Antônio.
Além das histórias bíblicas, o sacerdote recorda a história brasileira de resistência, como a dos anos 50/60, em que houve um período de grande efervescência na Igreja, através da Ação Católica. Logo após essa Ação, “que fez um bem enorme ao mundo inteiro”, no Brasil nasceu a CNBB e o Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (CELAM), e na sociedade (Paulo Freire, UNE) e com muitas iniciativas sociais e educacionais.

Depois veio o Concílio Vaticano II, em 1962, para coroar esse avanço, mas logo em seguida veio o golpe militar de 64, que tentou sufocar esse crescimento com prisões, exílios, tortura e morte. Padre Antônio ressalta que quem viveu a ditadura jamais defenderia seu retorno.
Mas a eclosão da resistência fez surgir novas forças como as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), os Movimentos Populares (MST, Movimentos Sem Teto), as Pastorais Sociais (Campanha da Fraternidade, Grito dos Excluídos).
Contudo, Padre José Antônio critica o atual Congresso Nacional por legislar em favor da elite brasileira em detrimento das pautas populares. Ele enfatiza a necessidade de consciência de classe e da “opção preferencial pelos pobres” na política.
Mas também, ele enfatiza o nascimento dos fóruns sociais, que, para ele, é uma “pedra preciosa”, os quais propõem a construção de “outro mundo possível” através da organização e da participação popular, contrapondo ao Fórum Econômico Mundial.
“Jesus acende uma esperança no coração do povo de que é possível organizar a sociedade de uma forma diferente. A partir do povo, sem ostentação, sem armas, sem poder absoluto, mas com a participação das pessoas. E na partilha do pão, Jesus vai mostrar que a solução não está no milagre, mas na partilha”, enfatizou Padre José Antônio.

Música “Manda profetas” do Padre Zezinho para encerrar a conferência.
Além de toda a história social e da Igreja, ele contrasta a popularidade de “influenciadores” religiosos com figuras de padres que trabalham com ação direta e acolhimento dos mais pobres. Ele critica o fato de muitos buscarem a oração em massa, mas haver pouca gente disposta a atuar nas periferias, asilos ou hospitais. Ele questiona a preocupação da Igreja com números, que muitas vezes compromete a qualidade do compromisso social.
Padre José Antônio encerrou com a música “Manda profetas” do Padre Zezinho, clamando por profetas que enfrentem a dor, lutem, falem de amor e chorem com o povo.

Sementes produzidas nos projetos populares de subsistência.
O primeiro depoimento apresentou o projeto sobre as barraginhas, em Urucânia (MG), o qual consiste em fazer pequenos poços de água no curso das enchentes, para a terra absorvê-la, abastecer o lençol freático e, com isso, a criação de novas nascentes de água no local.
Logo após, a história da Cooperativa Aguapé de catadores de materiais recicláveis de Manhumirim (MG), que, organizados, conseguiram um contrato com a prefeitura, melhorando a vida de todos os trabalhadores e deixando a cidade mais limpa e consciente.
Em seguida, a experiência da Escola Nacional de Energia Popular (ENEP) em Viçosa (MG), destina-se a um espaço de informação, aprendizado, pesquisa e interação permanente entre o saber popular e o científico.
Depois, foi a vez da Horta Comunitária da Agricultura Urbana, em Congonhas (MG), que transforma terrenos urbanos ociosos em centros de segurança alimentar, educação ambiental e fortalecimento de laços sociais, combatendo a fome e promovendo bem-estar com uma alimentação saudável.
Por último, o projeto Abelhas em risco, alimento em perigo, em Acaiaca (MG), busca conscientizar a população sobre a importância de não matar as abelhas, pois, elas polinizam a natureza e produzem o mel, o qual é um alimento natural e medicinal.
Texto: Dacom/Arquidiocese de Mariana