Celebrar a Solenidade de Corpus Christi, neste ANO SANTO DA REDENÇÃO, é reafirmar que o traço fulcral de nossa fé é o Cristo, Pão vivo descido do Céu. A IGREJA vive DA EUCARISTIA como próprio núcleo de seu mistério. “Desde Pentecostes, este sacramento divino foi ritmando os dias da Igreja, enchendo-os de consoladora esperança”. Por isso, “O olhar da Igreja volta-se continuamente para o Seu Senhor, presente no sacramento do Altar, onde descobre a plena manifestação de seu amor” (Ecclesia de Eucharistia, 1).
Desde a sua prefiguração no Antigo Testamento, entendemos que sem a Eucaristia o caminho da realização humana se tornaria longo demais e inalcançável a consolidação do sentido de nossa existência. “Quanto a Elias, fez pelo deserto a caminhada de um dia e foi sentar-se debaixo de um junípero. Pediu a morte, dizendo: ‘Agora basta, Senhor! Retira-me a vida, pois não sou melhor que meus pais. ’ Deitou-se e dormiu debaixo do junípero. Mas eis que um Anjo o tocou e disse-lhe: ‘Levanta-te e come’. Abriu os olhos e eis que, à sua cabeceira, havia um pão cozido sobre pedras quentes e um jarro de água. Comeu, bebeu e depois tornou a deitar-se. Mas o Anjo do Senhor veio pela segunda vez, tocou-o e disse: ‘Levanta-te e come, pois do contrário o caminho te será longo demais’. Levantou-se, comeu e bebeu e, depois, sustentado por aquela comida, caminhou quarenta dias e quarenta noites até à montanha de Deus, o Horeb” (1 Reis,19, 4-8). Come o Pão da Eucaristia, pois do contrário o caminho te será longo demais.
Somos Igreja Eucarística, comunidade dos seguidores de Jesus Cristo, cuja razão de ser é a própria Pessoa do Verbo Divino encarnado na história. Por isso, o Concílio Vaticano II, em sua Constituição Dogmática sobre a Igreja, recorda que a Eucaristia é fonte e ápice da vida cristã. (LG, 10). Tal realidade é visível desde as primeiras imagens da Igreja que encontramos no texto de Lucas, em Atos: “Eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à união fraterna, à fração do pão e às orações” (At 2,42). “Mais de Dois mil anos depois, continuamos a realizar aquela imagem primordial da Igreja. E, ao fazê-lo na celebração eucarística, os olhos da alma voltam-se para o Tríduo Pascal: para o que se realizou na noite de Quinta-feira Santa, durante a Última Ceia, e nas horas sucessivas. De fato, a instituição da Eucaristia antecipava, sacramentalmente, os acontecimentos que teriam lugar pouco depois, a começar da agonia no Getsémani. Revemos Jesus que sai do Cenáculo, desce com os discípulos, atravessa a torrente do Cedron e chega ao Horto das Oliveiras. Existem ainda hoje naquele lugar algumas oliveiras muito antigas; talvez tenham sido testemunhas do que aconteceu junto delas naquela noite, que Cristo, em oração, sentiu uma angústia mortal ‘e o seu suor tornou-se-Lhe como grossas gotas de sangue, que caíam na terra’ (Lc 22,44). O sangue que, pouco antes, tinha entregado à Igreja como vinho de salvação no sacramento eucarístico, começa a ser derramado; a sua efusão completar-se-ia depois no Gólgota, tornando-se o instrumento da nossa redenção: ‘Cristo, vindo como Sumo Sacerdote dos bens futuros (…) entrou uma só vez no Santo dos Santos, não com o sangue dos carneiros ou dos bezerros, mas com o seu próprio sangue, tendo obtido uma redenção eterna’ (Hb 9,11s). (E.E., 3).
Ecclesia de Eucharistia recorda que o enlevo do evento pascal deve invadir a assembleia eclesial e inundar o ministro que a preside. A presença amiga de quem se interessa por nós é uma dádiva. Jesus veio nos trazer gratuitamente a salvação. Cumpriu plenamente o sonho divino: o resgate da pessoa humana. Veio habitar entre nós, porque se fez carne como nós. Terminando sua jornada temporal, Ele não quis nos deixar órfãos. Pediu ao Pai que enviasse o Paráclito para nos defender constantemente.
A amizade que Jesus nos tem é indestrutível. Está pactuada na nova e eterna Aliança: a Última Ceia, ou seja, a primeira Missa. Uma presença que engloba toda a História:
A cada ano, o tríduo sagrado da Páscoa se inicia pela “Missa in Coena Domini”, ocasião em que a Igreja celebra a instituição do Sacramento da Eucaristia. Sugestivamente, os atos litúrgicos prosseguem com a instituição do Sacerdócio Ministerial e do Mandamento do Amor, diretamente ligados à motivação e realização do augusto sacramento da divina Eucaristia. O Ponto mais alto, a solene Vigília Pascal, é sempre seguido da procissão do Cristo Eucarístico, o Ressuscitado, lembrando: “Este é o dia que o Senhor fez para nós, alegremo-nos e nele exultemos”.
Na Bélgica, mais precisamente em Liège, no século XIII, teve origem a festa de Corpus Christi, quando a monja agostiniana Juliana de Cornillon teve visões de Cristo manifestando seu desejo de que o mistério da Eucaristia fosse celebrado com destaque. Em 1264, o Papa Urbano IV estendeu a festa para toda a Igreja. Tempo especial para este tema fulcral na vida da Igreja, dado que as cerimônias da Semana Santa apresentam uma sequência intensa de eventos. O calendário litúrgico colocou esta festa na quinta-feira, após a festa da Santíssima Trindade.
Para enfatizar o desfecho da Semana Santa, destacando a continuidade da presença viva do Ressuscitado é que celebramos a festa de CORPUS CHRISTI.
Padre Paulo Dionê Quintão
Pároco de Santa Rita de Cássia, Viçosa, MG