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Folia de Reis de Paracatu de Baixo: uma história de fé e resistência

05 de janeiro de 2024 Arquidiocese

A Igreja festeja neste sábado, 6 de janeiro, o Dia de Reis. Em muitas regiões brasileiras, acontece também nessa data a Folia de Reis, uma celebração de origem europeia. Em Paracatu de Baixo, subdistrito de Mariana (MG) que foi atingido pelo rompimento da barragem de Fundão, a manifestação cultural é também sinônimo de fé e resistência.

Confira abaixo a matéria especial sobre a Folia de Reis de Paracatu de Baixo publicada na edição nº 322 do Jornal Pastoral, em janeiro de 2022.

“Senhora dona de casa
vem receber a bandeira.
Nós trouxemos a bandeira
Do Espírito Santo.
Viemos pedir esmolas,
Pra fazer a festa dele
Do Menino Jesus”. (José do Patrocínio, mais conhecido como “Seu Zezinho”)

Arte, cultura, beleza e fé se unem em um só louvor. Juntas, formam uma das mais antigas tradições europeias trazida ao Brasil pelos colonizadores portugueses: a Folia de Reis. Existente em muitos estados brasileiros, a manifestação religiosa e cultural tem como objetivo “homenagear ao Menino Jesus e levar alegrias e fé para as pessoas que nos recebem em suas casas”, afirma Maria Geralda Oliveira da Silva, integrante da Folia de Reis de Paracatu de Baixo, subdistrito de Mariana (MG).

Acompanhados por instrumentos musicais como o tambor, pandeiro, caixa de guerra, sanfona e bumbo, vozes entoadas em coro louvam ao Menino Jesus. Recordando os três Reis Magos que, guiados por uma estrela no céu viajaram do Oriente à Jerusalém para visitar o Salvador e lhe ofertar ouro, incenso e mirra, o cortejo sai às ruas entre os dias 26 de dezembro e 06 de janeiro, quando se celebra o dia dos Santos Reis e a Epifania do Senhor.

Vestindo roupas coloridas, sendo que a de Paracatu de Baixo tem como cores principais o vermelho e branco, a Folia do subdistrito marianense percorre as comunidades vizinhas como Furquim, Pedras, Borba, Águas Claras, Monsenhor Horta e Ponte do Gama levando uma mensagem de fé e devoção. De acordo com a integrante, a festa do Menino Jesus é comemorada em setembro, tendo como foco o dia 13, podendo acontecer entre 13 e 20 do mesmo mês, e tem como marco principal a Folia de Reis.

“Setembro foi o mês escolhido para louvar, agradecer, festejar e preparar a chegada do Menino Jesus”, ela explica, lembrando que, toda a preparação da festa, que ocorre na sexta-feira, no sábado e no domingo, acontecia na casa do seu pai, o senhor José do Patrocínio.

Coral, Congado, dança da fita, Folia de Reis de Paracatu e de outras comunidades, boi da manta e palhaço fazem parte dessa bonita e importante festa da religiosidade popular. “Tem leilão, brinquedos para as crianças, barraquinhas, sorvete, bandeirinhas coloridas, banda de música para acompanhar a procissão, som na praça e banda para o povo dançar forró. Também tem almoço para todos aqueles que quiserem”, conta dona Maria. Ainda, ocorre nos dias anteriores à novena e, no dia festivo, a missa solene e o levantamento do mastro com a bandeira do Menino Jesus.

Um fato curioso sobre a Folia de Reis de Paracatu descrita no Inventário de Proteção do Acervo Cultural da Prefeitura de Mariana, feito em 2005, é que, quando ela encontra com outra, trocam entre si as bandeiras e cantam uma para a outra, mas nunca de forma simultânea, pois cada uma tem a sua própria forma de cantar e de apresentar. Em seguida, elas compartilham entre si um pouco do dinheiro arrecadado.

A Folia de Paracatu

Segundo dona Maria, não se sabe com precisão quando a Folia de Reis de Paracatu de Baixo foi fundada. Por esse motivo, é considerada pelo grupo a data de 1961, ano em que seu pai, José do Patrocínio, se tornou capitão da Folia.

Mais do que a representação de um grupo religioso em Paracatu de Baixo, conforme dona Maria, a Folia se tornou tradição na comunidade e depois do rompimento da barragem de Fundão, que atingiu o subdistrito em 05 de novembro de 2015, se tornou também um grupo de resistência que é movido pela fé e pelo amor ao Menino Jesus. “E nós, integrantes, movemos a Folia”, destaca.

De geração a geração

A comunidade de Paracatu de Tradição passada de pai para filhos, dona Maria orgulha-se em dizer que nasceu dentro da Folia, revelando o amor que vem do berço e aprendido com os seus antepassados, a exemplo do seu pai, mais conhecido como “seu Zezinho”, que dedicou mais de 50 anos de sua vida à Folia de Reis de Paracatu. “Mesmo com suas forças fracassadas, [ele] ainda se preocupava com a Folia, sempre pedindo [para] não deixar a Folia acabar”, pontua.

Por essa razão, para ela, a Folia de Reis significa tudo. “Além de ter sido uma paixão do meu pai, eu nasci e cresci dentro dela; e me tornei Folia”, enfatiza, não escondendo a paixão que sente.

Após o falecimento do seu Zezinho, em 30 de outubro de 2021, dona Maria e seus irmãos firmaram juntos a responsabilidade de darem continuidades com os trabalhos feitos pela Folia.

“Essa tradição não vai parar; como neste ano a gente já fez toda a rota completa. Até então, depois da lama, do rompimento [da barragem], a gente andou com o meu pai em alguns lugares só”, comenta ao destacar o desejo que era do seu e que agora, juntamente com os seus familiares e amigos, assumiu como missão: não deixar a Folia de Reis acabar.

Texto: Thalia Gonçalves

Fotos: Wigde Arcângelo

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