terça-feira

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Homilia de Dom Geraldo na celebração do 1º aniversário do rompimento da barragem do Fundão

06 de novembro de 2016 Arquidiocese

No dia 5 de novembro, na Celebração Eucarística, na igreja do Sagrado Coração de Jesus, no bairro Colina, em Mariana, por ocasião do 1º aniversário do rompimento da barragem do Fundão, em Bento Rodrigues, Dom Geraldo Lyrio Rocha, fez a seguinte homilia:

 

Transferida do dia 1º de novembro para o domingo seguinte, por desígnio da Divina Providência, a celebração do dia de Todos os Santos, neste ano, coincide com o 1º aniversário da grande tragédia do rompimento da barragem de Fundão, no distrito de Bento Rodrigues, neste município de Mariana, que levou a vida de 19 pessoas, entre moradores e trabalhadores naquela localidade.

No sermão da montanha, que há pouco ouvimos, o evangelista Mateus apresenta Jesus como o novo Moisés que, no alto do monte, proclama a nova revelação sobre o novo monte Sinai. As multidões, agrupadas por Jesus, escutam esse discurso que é uma explicitação da boa notícia do reino.

Com extraordinária autoridade, Jesus proclama: Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus (M 5,3). A expressão “pobres em espírito”(Mt 5, 3) usada pelo evangelista Mateus não se refere àqueles que, embora ricos, são espiritualmente desapegados da sua riqueza. Essa expressão se refere à classe pobre que, como hoje, constituía a maior parte da população da terra de Jesus, pois, além das carências materiais, os pobres a que Mateus se refere, se em encontravam em péssimas condições de vida.

Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados (Mt 5,4).  Quem são os aflitos? Provavelmente, o evangelista se refere àqueles que choravam os males de Israel por causa dos pecados. Sua consolação consiste na experiência da salvação messiânica.

Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra (Mt 5,5). Essa bem-aventurança se reporta à promessa feita aos patriarcas do Antigo Testamento e anuncia a recuperação da terra de Israel, no reino definitivo, mediante a obra salvífica de Deus.

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados (Mt 5, 6). A “justiça” da qual é preciso ter fome e sede designa a condição do bom relacionamento com Deus, obtido com a submissão à sua vontade. O “justo” é o que cumpre a vontade de Deus.

Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia (Mt 5, 7). Os misericordiosos segundo Mateus são sobretudo os que praticam a solidariedade (a esmola) e sabem dar o perdão. A recompensa pela misericórdia praticada é receber misericórdia: “os misericordiosos alcançarão misericórdia” (Mt 5, 7).

Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus (Mt 5,8). Os “puros de coração”, isto é, os que têm pensamentos e desejos puros “verão a Deus” (Mt 5,8). Isto é, serão admitidos à presença de Deus.

Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus (Mt 5,9). O que significa promover a paz? Significa empenhar-se pela reconciliação, concórdia, diálogo entre as partes, entendimento entre as pessoas, recomposição da unidade e da comunhão. Os que promovem a paz terão como recompensa serem “chamados filhos de Deus”.

Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus (Mt 5,10). Especialmente no Brasil e em toda a América Latina, são muitos os que participam dessa bem-aventurança. É incontável o número dos mártires que derramaram seu sangue por causa da justiça, promoção da vida, reconhecimento dos direitos e dos que se empenharam na luta por terra, teto e trabalho, e se empenharam para que todos tenham condições de vida com dignidade.

Estas bem-aventuranças, proclamadas por Jesus, representam uma reviravolta em relação aos valores do mundo, pois, declaram felizes aqueles que não assumem os critérios mundanos como valores em sua vida. Nisto consiste a santidade a que todos nós somos chamados. Em sua viagem apostólica à Suécia, disse o Papa Francisco na Santa Missa celebrada no dia 1º deste mês de novembro: “As Bem-aventuranças são o perfil de Cristo e, consequentemente, do cristão. Elas são de certo modo a carteira de identidade do cristão, como seguidor de Jesus. Somos chamados a ser bem-aventurados, seguidores de Jesus, enfrentando os sofrimentos e angústias do nosso tempo com o espírito e o amor de Jesus. Neste sentido, poderíamos assinalar novas situações para as vivermos com espírito renovado e sempre atual: felizes os que suportam com fé os males que outros lhes infligem e perdoam de coração; felizes os que olham nos olhos os descartados e marginalizados fazendo-se próximo deles; felizes os que reconhecem Deus presente em cada pessoa e lutam para que também outros o descubram; felizes os que protegem a casa comum e cuidam dela; felizes os que renunciam ao seu próprio bem-estar em benefício dos outros; felizes os que rezam e trabalham pela plena comunhão dos cristãos… Todos eles são portadores da misericórdia e ternura de Deus, e dele receberão sem dúvida a merecida recompensa”.

Na solenidade de Todos os Santos, “não só recordamos aqueles que foram proclamados Santos ao longo da história, mas também muitos irmãos nossos que viveram a sua vida cristã na plenitude da fé e do amor através de uma existência simples e reservada. Contam-se certamente, entre eles, muitos dos nossos parentes, amigos e conhecidos” recorda-nos o Papa Francisco. “Mas, se há alguma coisa que caracterize os Santos, é o fato de serem verdadeiramente felizes. Descobriram o segredo da felicidade autêntica, que mora no fundo da alma e tem a sua fonte no amor de Deus. Por isso, os Santos são chamados bem-aventurados. As Bem-aventuranças são o seu caminho rumo ao seu destino, rumo à pátria definitiva. As Bem-aventuranças são o caminho de vida que o Senhor nos indica, para podermos seguir os seus passos” disse o Papa.

Celebrando a solenidade litúrgica de Todos os Santos e Santas, devemos tomar consciência de que todos nós, pela graça do Batismo, também somos convidados à santidade, isto é, a viver em comunhão com Deus, seguindo os ensinamentos de Jesus, guiados pelo Espírito Santo. O Papa Francisco acrescenta: “Celebramos, pois, a festa da santidade. Aquela santidade que, às vezes, não se manifesta em grandes obras nem em sucessos extraordinários, mas que sabe viver, fiel e diariamente, as exigências do Batismo. Uma santidade feita de amor a Deus e aos irmãos. Amor fiel até ao esquecimento de si mesmo e à entrega total aos outros, como a vida de mães e pais que se sacrificam pelas suas famílias sabendo renunciar de boa vontade, embora nem sempre seja fácil, a tantas coisas, tantos projetos ou programas pessoais”.

Neste primeiro aniversário do rompimento da barragem de Fundão, ao mesmo tempo em que nos solidarizamos com todos os atingidos por essa tragédia, ao longo de toda a Bacia do Rio Doce, queremos especialmente rezar pelos que morreram para que, unidos aos santos de Deus, na glória do céu, possam participar definitivamente da bem-aventurança prometida aos pobres, aflitos, mansos, aos que têm fome e sede de justiça, aos misericordiosos, puros de coração, promotores da paz e perseguidos por causa da justiça.

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