sábado

, 20 de agosto de 2022

Homilia de Dom Geraldo na Solenidade de Corpus Christi

16 de junho de 2017 Arquidiocese

Na Solenidade de Corpus Christi (15), em Mariana, Dom Geraldo Lyrio Rocha proferiu a seguinte homilia:

Esta Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, no Brasil, vem emoldurada pela celebração do Ano Mariano que marca o tricentenário do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida, nas águas do Rio Paraíba do Sul. Esse evento está sendo celebrado com a peregrinação da imagem da Padroeira do Brasil que tem percorrido as paróquias da Arquidiocese de Mariana e hoje se encontra aqui entre nós, em sua visita a esta Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, de onde irá depois para a Paróquia da Catedral. A peregrinação desta venerável imagem se concluirá no próximo dia 25, na igreja de Nossa Senhora Aparecida, no Bairro das Cabanas, em Mariana, onde será instalada a primeira paróquia de nossa Arquidiocese dedicada à Padroeira do Brasil.

Estamos comemorando, também, os 250 anos do início, na Serra da Piedade, da devoção à Padroeira do Estado de Minas Gerais. Não podemos nos esquecer que, neste ano, celebramos também o centenário das aparições de Nossa Senhora de Fátima aos três pastorinhos, na Cova da Iria.

Estes motivos marianos nos convidam a contemplar na fé os vínculos misteriosos entre Maria e a Eucaristia:São João Paulo II em sua Encíclica sobre a Eucaristia na sua relação com a Igreja, nos diz que “não podemos esquecer Maria porque ela tem uma relação profunda com o santíssimo sacramento. “Maria está presente, com a Igreja e como Mãe da Igreja, em cada uma das celebrações eucarísticas.Se Igreja e Eucaristia são um binômio indivisível, o mesmo é preciso afirmar do binômio Maria e Eucaristia” (EE 57).

Seguindo os passos de Maria, vamos percebendo sua relação com a Eucaristia. Já na anunciação se encontra uma analogia profunda entre o “sim” pronunciado por Maria e o “amém” que o fiel diz ao receber o Corpo de Senhor, na sagrada comunhão. A atitude que une o fiel a Maria é a fé, pela qual Maria acreditou no mistério da encarnação, antecipando a fé eucarística da Igreja. Assim, diz São João Paulo II: “A Maria foi-lhe pedido para acreditar que aquele que ela concebia «por obra do Espírito Santo» era o «Filho de Deus» (cf. Lc1, 30-35). Dando continuidade à fé da Virgem Santa, no mistério eucarístico nos é pedido para crer que aquele mesmo Jesus, Filho de Deus e Filho de Maria, se torna presente nos sinais do pão e do vinho com todo o seu ser humano-divino” (EE, 55).

A visita de Maria a Isabel nos permite vislumbrar seu sentido “eucarístico”. No paralelismo com o transporte da arca da aliança, o evangelista Lucas quer transmitir a convicção que Maria é a arca da nova aliança, o lugar incorruptível da presença do Senhor. A encíclica de São João Paulo II, já mencionada, lê de modo sugestivo o dado bíblico como antecipação do que acontecerá com a Eucaristia. “Na visitação, quando Maria leva em seu ventre o Verbo Encarnado, de certo modo ela serve de «sacrário» – o primeiro «sacrário» da história –, para o Filho de Deus, que, ainda invisível aos olhos dos homens, se presta à adoração de Isabel, como que «irradiando» a sua luz através dos olhos e da voz de Maria” (EE 55).

Relendo, em perspectiva eucarística,o Magnificat cantado por Maria em sua visita a Isabel nos permite descobrir que “na Eucaristia, a Igreja une-se plenamente a Cristo e ao seu sacrifício, com o mesmo espírito de Maria. De fato, como o cântico de Maria, a Eucaristia é primeiramente louvor e ação de graças. Quando exclama: «A minha alma glorifica ao Senhor e o meu espírito exulta de alegria em Deus meu Salvador», Maria traz no seu ventre Jesus. Louva o Pai «por» Jesus, mas louva-o também «em» Jesus e «com» Jesus. É nisto precisamente que consiste a verdadeira «atitude eucarística», (EE 58).

Na infância de Jesus, Maria oferece duas atitudes indispensáveis a uma participação na Eucaristia: o amor e a oferta do sacrifício. Em Belém, a Mãe se revela incomparável modelo de amor quando contempla, com olhar arrebatado, a face de Cristo apenas nascido e o envolve com seus braços. “Ao longo de toda a sua existência ao lado de Cristo, e não apenas no Calvário, Maria viveu a dimensão sacrifical da Eucaristia. Quando levou o menino Jesus ao templo de Jerusalém, «para apresentá-lo ao Senhor» (Lc 2, 22), ouviu o velho Simeão anunciar que aquele Menino seria «sinal de contradição» e que uma «espada» haveria de traspassar também a sua alma(cf. Lc2, 34-35). Assim foi vaticinado o drama do Filho crucificado e de algum modo prefigurado o «stabatMater» aos pés da Cruz. Preparando-se dia a dia para o Calvário, Maria vive uma espécie de «Eucaristia antecipada», dir-se-ia uma «comunhão espiritual» de desejo e oferta, que terá o seu cumprimento na união com o Filho durante a Paixão” (EE 56).

O vértice da participação de Maria no mistério pascal, do qual a Eucaristia é o memorial, é a experiência desse mistério da parte da Santíssima Virgem. Para nós cristãos, viver o memorial da morte de Cristo na Eucaristia implica também receber continuamente este dom. Significa levar conosco – a exemplo de João – aquela que sempre de novo nos é dada como Mãe. Significa ao mesmo tempo assumir o compromisso de nos conformarmos com Cristo, entrando na escola da Mãe e aceitando a sua companhia (EE 57).

Mais uma vez, iluminadoras são as palavras de São João Paulo II: “Se a Eucaristia é um mistério de fé que excede tanto a nossa inteligência que nos obriga ao mais puro abandono à palavra de Deus, ninguém melhor do que Maria pode servir-nos de apoio e guia nesta atitude de entrega. Todas as vezes que repetimos o gesto de Cristo na Última Ceia, dando cumprimento ao seu mandato, (Fazei isto em memória de Mim), ao mesmo tempo acolhemos o convite que Maria nos faz para obedecermos a seu Filho sem hesitação: «Fazei o que ele vos disser» (Jo 2, 5). Com a solicitude materna manifestada nas bodas de Caná, ela parece dizer-nos: «Não hesiteis, confiai na palavra do meu Filho. Se ele pôde mudar a água em vinho, também ele é capaz de fazer do pão e do vinho o seu corpo e sangue, entregando-nos, neste mistério, o memorial vivo da sua Páscoa e tornando-se assim o “pão da vida” (EE 54)».

Um belo hino nos leva a cantar estas maravilhas realizadas por Deus na história da salvação:

 

Vamos todos louvar juntos

o mistério do amor,

pois o preço deste mundo

foi o sangue redentor,

recebido de Maria,

que nos deu o Salvador.

 

Veio ao mundo por Maria,

foi por nós que ele nasceu.

Ensinou sua doutrina,

com os homens conviveu.

No final de sua vida,

umpresente ele nos deu. Isto é, o pão da vida e o cálice da salvação que ele nos oferece na Eucaristia, sacramento do Sacrifício da Cruz. Amém!

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