Neste 19 de fevereiro de 2026, a Arquidiocese de Mariana volta seu olhar para a história, para celebrar os 150 anos de nascimento de Dom Helvécio Gomes de Oliveira.
Segundo Arcebispo de Mariana, governando entre 1922 e 1960, Dom Helvécio não foi apenas um sucessor à altura do venerável Dom Silvério Gomes Pimenta, mas um dos maiores nomes da educação e da preservação ambiental na história de Minas Gerais.
Sua trajetória, marcada pelo zelo extremo com as coisas da Igreja e uma vocação educadora nata, deixou marcas indeléveis que ultrapassam as fronteiras do altar.
Nascido em Anchieta, Espírito Santo, dia 19 de fevereiro de 1876, Helvécio manifestou ainda na infância, aos três anos de idade, afirmando para sua família, a sua vocação sacerdotal.
Aos oito anos, após o falecimento de seu pai, fora levado para Poços de Caldas pelo padrinho de batismo, o Cônego Quintiliano. Quatro anos depois, em 1888, matricula-se no Colégio Salesiano Santa Rosa, em Niterói (RJ).
Obtendo notas altíssimas e com um comportamento exemplar, a direção do Colégio salesiano o enviou para a Europa sob a égide da Sociedade Salesiana e os ensinamentos de Dom Bosco, e lá forjou seu caráter religioso, tendo como prioridade a educação e o zelo com o Sagrado.
Ordenou-se sacerdote dia 05 de abril de 1894, na Basílica de Santa Maria Auxiliadora em Turim, na Itália.
Ao retornar ao Brasil, sua passagem por Mato Grosso e São Paulo já revelava um homem multifacetado: diretor de liceus, entusiasta da imprensa e fundador de observatórios meteorológicos.
Sua eleição para o episcopado, em 1917, foi recebida com humildade e certa resistência pessoal, dada sua preferência pelo magistério, mas a obediência à Santa Sé o levou ao Mato Grosso, a Niterói e ao Maranhão e, posteriormente, ao solo mineiro.
Por meio da mesma bula que elevou a Diocese de Maranhão à Arquidiocese, do Papa Bento XV, em 1921, e ratificada pelo Papa Pio XI, em fevereiro de 1922, o Santo Padre também comunicava a eleição de Dom Helvécio para bispo auxiliar, com direito à sucessão, da Arquidiocese de Mariana.
Dom Silvério Gomes Pimenta, primeiro Arcebispo da recém-criada Arquidiocese de Mariana, já estava com sua saúde fragilizada. No entanto, não foi possível a posse de Dom Helvécio como bispo auxiliar, por isso, tornou-se necessária a edição de uma nova bula para que a sucessão fosse formalizada, fato que ocorreu dia 10 de novembro de 1922, menos de três meses após o falecimento de Dom Silvério.

A chegada de Dom Helvécio a Mariana, em 1922, foi um evento de comoção popular.
Sua entrada solene à Catedral da Sé se deu dia 26 de novembro do mesmo ano, data em que foram registradas brilhantes festividades em alusão ao importante acontecimento. Desfilou pela rua Direita e, em todo percurso, era saudado pelas famílias que, das sacadas dos casarões, atiravam-lhe pétalas de flores.
Após sua visita geral à Arquidiocese, ele trabalhou pela criação da Diocese de Juiz de Fora e de Leopoldina, realizadas, respectivamente, em 1924 e 1942.
Em seu longo pastoreio, ele demonstrou uma visão de mundo que unia a tradição católica à modernidade necessária para o desenvolvimento social.
Foi um defensor fervoroso do patrimônio artístico mineiro. Em 1926, publicou a “Pastoral do Episcopado mineiro sobre o patrimônio artístico”, considerada o marco zero da preservação cultural em Minas Gerais. Sua luta contra o tráfico de arte sacra culminou na fundação do Museu de Arte Sacra da Arquidiocese de Mariana, cujo acervo inicial foi por ele doado.
Paralelamente, Dom Helvécio atuou como um diplomata da paz. Durante a Revolução de 1930, em São João Del-Rei, arriscou a vida ao mediar o conflito entre militares e revolucionários, convencendo as tropas a deporem as armas para evitar o derramamento de sangue.
Sua sensibilidade social também se estendia aos operários, como visto em Ipatinga, onde abençoou a pedra fundamental da Usiminas, sempre exaltando a dignidade do trabalho braçal.
Sua alcunha de “Bispo das Matas” não foi por acaso. Décadas antes da ecologia se tornar uma pauta global, ele previu os riscos do desmatamento na região do Rio Doce. Seu empenho foi fundamental para a criação do Parque Estadual do Rio Doce, em 1944, a primeira unidade de conservação de Minas Gerais. Em sua honra, a maior lagoa do parque carrega, até hoje, o seu nome.

Como educador, Dom Helvécio foi um construtor de futuros. Fundou colégios em Ouro Preto, Ponte Nova e em sua terra natal, Anchieta (ES), levando ensino de qualidade ao interior do Brasil.
Em Mariana, sua maior obra foi o Seminário Maior São José, inaugurado em 1934, que se tornou referência nacional na formação clerical. Por seu incansável empenho em despertar chamados religiosos, especialmente entre os jovens mais humildes, foi aclamado como o “Arcebispo das Vocações”.
Seu reconhecimento cruzou mares e fronteiras políticas. Recebeu o título de Conde Romano do Papa Pio XI, em 1926, e a insígnia de Grande Oficial da Ordem ao Mérito das mãos de Juscelino Kubitschek, em 1951.
Dia 1º de abril de 1960, às vésperas da Semana Santa, ficou evidente a fragilidade de sua saúde, após retornar de sua cidade natal. No dia 10 de abril, Domingo de Ramos, mesmo com muita dificuldade, celebrou a Santa Missa, e nos dias seguintes seu estado de saúde piorara rapidamente.
Já no Domingo de Páscoa, já praticamente inconsciente, Dom Helvécio recebe de Dom Oscar a extrema-unção e seu sofrimento ainda se prolongou por mais oito dias.
Ele faleceu dia 25 de abril de 1960, ladeado por amigos, admiradores e autoridades. Uma multidão acompanhou a Santa Missa de corpo presente de dentro da Igreja e outra do lado de fora na madrugada do dia 26.
No dia seguinte, houve o cortejo fúnebre, onde o Arcebispo seria sepultado com todas as honras.
No entanto, Dom Helvécio permaneceu fiel à sua essência: morreu pobre, tendo doado seus bens remanescentes para obras de caridade e de educação.
Ao completar 150 anos de seu nascimento, sua memória permanece viva não apenas nos monumentos de pedra, mas na consciência preservacionista e nas instituições de ensino que continuam a formar gerações.
Fonte: Livro: Igreja de Mariana – 100 anos de Arquidiocese
Leia o texto na íntegra, clicando aqui