A importância da ONU e da defesa dos direitos humanos fundamentais
Hoje, analisou o Papa, não se procura a paz como um dom de Deus, mas através das armas, como condição para afirmar o próprio domínio, comprometendo gravemente o Estado de direito. O Pontífice recordou que a Organização das Nações Unidas foi criada 80 anos atrás tendo como eixo justamente a cooperação multilateral para salvaguardar a paz e defender os direitos humanos fundamentais.
A propósito do direito internacional humanitário, Leão XI recordou que deve sempre prevalecer sobre as veleidades dos beligerantes: “A Santa Sé reitera com firmeza a sua condenação de qualquer forma de envolvimento de civis em operações militares”.
Sobre o direito de expressão, reforçou a necessidade do diálogo, mas advertiu para o uso e o significado das palavras, cada vez mais utilizadas como uma arma com a qual se engana, se atinge e ofende os adversários, seja na política, seja nas redes sociais.
Ainda sobre a linguagem, o Santo Padre manifestou sua preocupação com o desenvolvimento de uma nova linguagem, que, na tentativa de ser cada vez mais inclusiva, “acaba por excluir aqueles que não se adaptam às ideologias que a animam”.

Papa se reúne pela primeira vez com o Corpo Diplomático
A crescente perseguição aos cristãos
O Papa Leão falou ainda da liberdade de consciência, sobretudo na rejeição de práticas como o aborto ou a eutanásia, e da liberdade religiosa, pedindo “total respeito” de culto para os cristãos e para todas as outras comunidades religiosas. A propósito, condenou mais uma vez com veemência o antissemitismo.
O Pontífice lamentou a crescente perseguição aos cristãos, que afeta mais de 380 milhões de fiéis em todo o mundo, ou seja, um em cada sete. E citou países como Bangladesh, Nigéria, Síria e Moçambique. Já na Europa ou nas Américas, verifica-se uma forma sutil de discriminação por razões políticas ou ideológicas, especialmente quando se defende a dignidade dos mais frágeis.
Nesta categoria, o Papa incluiu os migrantes, pedindo ações contra a ilegalidade e o tráfico de seres humanos, e os detentos, renovando o chamado pela abolição da pena de morte.
Leão XIV discursou ainda a favor da família e do matrimônio, como união exclusiva e indissolúvel entre a mulher e o homem. E condenou o chamado “direito ao aborto seguro” e a gravidez de substituição, transformando-a num serviço comercializado. Semelhantes considerações podem ser estendidas aos doentes e às pessoas idosas e sozinhas, e aos jovens, mais expostos à toxicodependência.
Respeitar a vontade do povo venezuelano
Diante de um verdadeiro “curto-circuito” dos direitos humanos, Leão XIV mencionou novamente Santo Agostinho para reivindicar o “direito de cidadania” à cidade de Deus. “Na ausência de um fundamento transcendente e objetivo, prevalece apenas o amor a si mesmo”, afirmou o Santo Padre, que ofusca a empatia para com o próximo.
É o que se constata no prolongamento da guerra na Ucrânia e na Terra Santa, com enorme sofrimento infligido à população civil. No primeiro caso, o Papa reafirmou a urgência de um cessar-fogo imediato. No segundo, a solução de dois Estados para responder às legítimas aspirações de ambos os povos.
No continente americano, Leão XIV manifestou preocupação com as tensões no Mar do Caribe, ao longo da costa americana do Pacífico e no Haiti. E sobre a Venezuela, afirmou:
“Renovo o apelo ao respeito pela vontade do povo venezuelano e ao empenho na defesa dos direitos humanos e civis de todos e na construção de um futuro de estabilidade e concórdia, haurindo inspiração no exemplo dos seus dois filhos que tive a alegria de canonizar em outubro passado, José Gregorio Hernández e Irmã Carmen Rendiles, a fim de construir uma sociedade baseada na justiça, na verdade, na liberdade e na fraternidade, e assim superar a grave crise que há muitos anos aflige o país.”
No panorama mundial, o Pontífice falou das crises em Mianmar e na região africana dos Grandes Lagos, no Sudão e Sudão do Sul.

Audiência ao Corpo Diplomático é uma tradição no início do novo ano
O perigo do aumento dos arsenais nucleares e a IA
Além de fronteiras geográficas, a paz também está ameaçada pela existência de arsenais nucleares. A propósito, o Papa Leão apontou para a importância de dar seguimento ao Tratado New START, que termina em fevereiro próximo. “O perigo é que o sonho seja o da corrida a produzir novas armas cada vez mais sofisticadas”, disse o Papa, incluindo neste tópico o desafio da inteligência artificial, ferramenta que também requer uma gestão adequada e ética.
Leão XIV concluiu seu discurso em tom esperançoso, pois mesmo diante deste quadro dramático, a paz continua possível. Exige humildade e coragem: “A humildade da verdade e a coragem do perdão”.
Para finalizar, citou São Francisco de Assis, cuja morte completará 800 anos no próximo mês de outubro: “A sua vida é luminosa porque foi animada pela coragem da verdade e pela consciência de que um mundo pacífico se constrói a partir de um coração humilde, voltado para a cidade celestial. Um coração humilde e construtor de paz é o que desejo a cada um de nós e a todos os habitantes dos nossos países no início deste novo ano. Obrigado!”.
Texto: Vatican News
Fotos: Vatican Media