A comunidade de Nossa Senhora da Ajuda, no distrito do Faria, comemora, em Barbacena (MG) no ano de 2025, os 300 anos de fundação da primeira igreja de sua padroeira. Por isso, ao celebrar a data tão significativa, curiosidades e dúvidas surgem dado o período extenso, a sucessão de gerações e a quantidade impressionante de histórias e pessoas que passaram por essas terras.
Dessa forma, esclarecer os fatos cruciais do início e da continuidade do período torna-se importante tarefa, capaz de desenvolver consciência histórica e contar, a nós mesmos, como chegamos até aqui.
Informações que remontam o começo dessa jornada foram encontradas no livro: A Igreja em Barbacena, escrito por Nestor Massena, e, segundo o autor, em 1725, era estabelecido à margem do Caminho Velho – primeiro trajeto oficializado pela Coroa Portuguesa, hoje conhecido como Estrada Real – com família, escravos e flâmulos, o proprietário Antônio de Faria Moreira.
Ele, por estar “afastado da freguesia”, em dezembro daquele ano, escreveu ao Arcebispo do Rio de Janeiro solicitando permissão para construir, em sua fazenda, uma igreja sob a invocação de Nossa Senhora da Ajuda.
Com efeito, a autorização foi concedida, porém não foram encontradas informações quanto ao intervalo de início e conclusão da obra. Há, apenas, relatos de que a imagem – a mesma encontrada até os dias atuais – teria vindo de Portugal.
Fato é que, em homenagem ao fundador, a comunidade recebeu o nome de Faria, ainda que não haja, hoje em dia, nenhum descendente dessa família na localidade. Além disso, em memorandos encontrados facilmente na internet, mediante documentos digitalizados, consta-se que ele foi sepultado nesta capela em 1749.
No espaço entre 1725 e 1850, pouco se sabe a respeito do andamento das atividades e relações que os moradores desenvolviam nas redondezas. Há registros dos padres que exerceram sua função e algumas passagens devido registros do livro já citado e da Matriz de Nossa Senhora da Piedade, que também comemora seu tricentenário esse ano.
Exemplo disso, é a constatação de que o Bispo Dom Frei João da Cruz, do Rio de Janeiro, realizou uma visita pastoral em junho de 1742, quando passou pela Borda do Campo e por esta capela no Faria.
Transcorrido esse tempo inicial, de 1860 e 1920, ascendentes da geração atual relatam que, inicialmente, uma antiga “casa de pedra” era a única na região e, a partir de seu primeiro morador – Manoel Ferreira – vários nascimentos e casamentos construíram a grande teia que tece nossa árvore genealógica contemporânea.
Com a constituição dessas primeiras famílias, o sentimento de comunidade e pertencimento começava a se desenvolver, genuinamente, no coração dessas pessoas que viviam uma vida simples e enfrentavam grandes desafios, haja vista a escassez de recursos e a falta de infraestrutura que dificultava o deslocamento, tanto de seres humanos como de mercadorias, uma vez que a comunidade, em sua maioria, progrediu a partir da agropecuária.
Embora tal período tenha sido difícil, missas – ainda em latim – eram realizadas na igreja antiga e encontros para rezar o terço fortaleciam os laços de amizade e a fé que renovava, constantemente, a devoção e a esperança desse povo.

Entre 1920 e 1980, movimentos que, ainda hoje, reconhecemos e participamos engajaram os habitantes em vários seguimentos religiosos, como a extinta Irmandade de Nossa Senhora da Ajuda, as conferências de Nossa Senhora da Ajuda e São Pio X, a qual se mantém, e o Apostolado da Oração.
Tais impulsos instauraram tradições como festas da padroeira, coroações, procissões, novenas de Natal, zelo com o bem comum e o senso de responsabilidade perante os ensinamentos da Igreja. Assim, histórias contadas pelos mais velhos revelam comoção diante a harmonia vivenciada em torno das festividades, dos momentos de oração e lembranças como as de comidas e de bandas que vinham participar.
Além disso, foi nesse período que se notou a necessidade de uma capela maior, devido ao crescente número de famílias no Faria. Com o apoio de toda a comunidade e do Padre José Alvim Barroso, em agosto de 1971, celebrou-se a benção do lançamento da Pedra Fundamental e o princípio da edificação da nova igreja de Nossa Senhora da Ajuda – com mais de cinquenta anos de fundação.
Durante todo esse tempo muitas pessoas exerceram liderança e dividiram trabalhos que se apresentavam por meio da doação de seus próprios talentos, tempo e serviço.
Na década de 1980, outro grande passo foi dado: a juventude tomou seu espaço. Logo os primeiros encontros de jovens foram realizados e a comunidade passou a contar com o dinamismo e o comprometimento desses jovens que, gentilmente, foram tomando iniciativas e transformando a evangelização.
Com a criação do Grupo de Jovens do Faria (Grujof), reuniões de reflexão, dos mais variados temas, coral, visitas a orfanatos, terços nas casas, teatros de fim de ano, organização de bailes, barraquinhas em dias de festas e leilões, começaram a ser realizados e criaram raízes. Também, a formação do Grupo Eclesial de Base (CEBs) e a visita de Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida contribuíram, substancialmente, para o prosseguimento e fortalecimento das atividades religiosas.
Em 1990, a construção de uma capela do Santíssimo foi permitida para a permanência, na nova igreja, do Santíssimo Sacramento da Eucaristia. Com isso, foi também instaurada a Irmandade dos Irmãos do Santíssimo.
Ademais, houve o início da peregrinação da imagem da Mãe Rainha nos lares, tradição que persiste atualmente. Com a realização do primeiro Retiro Espiritual da Juventude, as ermidas de Cristo Rei e São Francisco foram erguidas. Em dezembro daquele ano, passamos a fazer parte da recém-criada Paróquia de Nossa Senhora da Assunção e ficou-se decidido que haveria novenas para celebrar a padroeira.
Entre 1994 e 2000, mudanças inspiradas por novas diretrizes da Arquidiocese de Mariana – da qual fazemos parte desde 1748 – foram adotadas, como a criação do Conselho Comunitário de Pastoral e a implantação de diversas pastorais.
Profissão de votos da Irmã Ana Lúcia Ferreira, primeira missa do padre, hoje bispo, Dom Nivaldo dos Santos Ferreira, filhos dessa terra; início da celebração da Semana Santa na comunidade e implantação do Plano Bienal de Evangelização foram importantes acontecimentos nesse período.
Outrossim, iniciou-se a participação de moradores em movimentos de nível paroquial, como o Encontro de Casais com Cristo (ECC). Desenvolveu-se um trabalho importe e necessário para conservar e/ou melhorar as benfeitorias julgadas convenientes, com o apoio integral dos residentes da comunidade.
Dos anos 2000 até 2025, muito do que vivenciamos é a continuidade de todos os processos principados no fim do século XX, salvo algumas novidades pastorais e tradições mais recentes – como almoço em dias festivos, a necessidade de uma Pastoral da Comunicação (PASCOM) mais ativa.
Demais mudanças estão associadas à novas ideias e necessidades que surgiram não somente em nossa comunidade, mas em toda a Igreja, o que certamente aconteceu e acompanhou todas as gerações que passaram por este lugar.
Em síntese, tudo o que está retratado até aqui é apenas um resumo do que realmente sucedeu os mais de 109.500 dias em razão de não haver, em boa parte do tempo, registros fidedignos que possam ser acessados.
Hoje, tudo o que somos e fazemos é resultado das memórias que trazemos, das histórias que ouvimos, das dificuldades que enfrentamos e, sobretudo, da união de pessoas que, com uma fé inabalável, seguem uma missão tão bonita sob o olhar maternal de Nossa Senhora da Ajuda. Assim, toda essa celebração nos ensina que o que é realizado com amor nunca pesa: se torna missão, entrega e gratidão. Nossa história continua sendo escrita, agora, com mais um capítulo inesquecível.
Texto: Amanda Ferreira Furtado/Pascom-Paróquia Nossa Senhora da Assunção, em Barbacena.