quarta-feira

, 23 de setembro de 2026

Fulton Sheen, o bispo que fez do rádio e da televisão instrumentos de evangelização

23 de setembro de 2026 Igreja no Mundo

Às vésperas da beatificação do Venerável Fulton J. Sheen, marcada para esta quinta-feira, 24 de setembro, em Saint Louis, Missouri, o Papa Leão XIV destacou uma característica central de sua vida e missão: a capacidade de utilizar os meios de comunicação para anunciar o Evangelho. Em sua saudação, o Papa pediu que o exemplo e a intercessão do futuro beato inspirem outros a encontrar “novas maneiras de difundir a mensagem do Evangelho com alegre entusiasmo”. A cerimônia será presidida pelo cardeal Luis Antonio Tagle, como representante do Pontífice:

Amanhã, em Saint Louis, Missouri, o Venerável Fulton Sheen será beatificado. Que o exemplo e a intercessão deste santo bispo, conhecido por seu trabalho de evangelização por meio dos meios de comunicação, inspirem muitos outros a encontrar, da mesma forma, novas maneiras de difundir a mensagem do Evangelho com alegre entusiasmo.

A trajetória de Fulton Sheen ajuda a compreender a atualidade desse apelo. Nascido em 1895, nos Estados Unidos, ordenado sacerdote em 1919 e posteriormente elevado ao episcopado, Sheen percebeu muito cedo que a missão evangelizadora da Igreja precisava alcançar também os novos espaços de comunicação que surgiam no século XX. Em 1930, começou sua participação no programa radiofônico The Catholic Hour”, que chegou a reunir cerca de quatro milhões de ouvintes. Mais tarde, a televisão ampliaria extraordinariamente esse alcance: a partir de 1951, seu programa “Life Is Worth Living” chegou a alcançar cerca de 30 milhões de espectadores.

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Evangelizar para além das paredes da igreja

O método de Sheen não consistia simplesmente em transferir para o rádio ou para a televisão uma pregação tradicional. Seu talento estava em traduzir questões profundas da fé para uma linguagem compreensível por um público muito mais amplo. Professor, escritor, pregador e comunicador, ele procurava relacionar o Evangelho às perguntas concretas das pessoas: o sentido da vida, o sofrimento, a liberdade, a consciência, a moral, o amor e a busca de Deus.

Essa característica explica a importância que sua figura adquiriu na história da evangelização pelos meios de comunicação. Sheen compreendeu que os meios técnicos não eram apenas instrumentos para ampliar o número de pessoas que ouviam uma mensagem. Eles constituíam novos ambientes nos quais a Igreja poderia encontrar homens e mulheres que talvez nunca entrassem em uma igreja para ouvir uma pregação.

Por isso, sua atividade pode ser vista como uma antecipação de um desafio que permanece atual: como anunciar Cristo em uma cultura marcada por novas linguagens e novas tecnologias? O rádio e a televisão foram, para Sheen, os grandes meios de comunicação de seu tempo. Hoje, a mesma questão se apresenta diante da internet, das redes sociais, dos podcasts, das plataformas de vídeo e, mais recentemente, da inteligência artificial.

Uma comunicação centrada em Cristo

A relevância de  Fulton Sheen não está apenas nos números impressionantes de sua audiência. Para compreender seu legado evangelizador, é necessário considerar aquilo que ele pretendia fazer com essa audiência: conduzir as pessoas ao encontro com Cristo e à vida cristã.

Em junho deste ano, ao falar às Pontifícias Obras Missionárias, Leão XIV já havia recordado Fulton Sheen como uma “luz de fé, esperança e amor” que brilhou durante décadas através do rádio e da televisão. Na mesma ocasião, o Papa revelou uma dimensão pessoal dessa memória: afirmou ter sido testemunha da evangelização de Sheen durante sua própria infância:

“É também providencial que este ano, a 24 de setembro, em St. Louis, Missouri, seja beatificado um dos Diretores nacionais mais famosos das Pontifícias Obras Missionárias, o venerável Fulton J. Sheen. O arcebispo Sheen foi um farol de fé, esperança e amor que brilhou durante décadas através dos meios radiofónicos e televisivos. Eu próprio fui testemunha da sua evangelização durante o meu crescimento. As suas transmissões tocaram milhões de pessoas com a esperança do Evangelho e as suas iniciativas e os seus esforços produziram uma enorme ajuda espiritual e material às Igrejas nas áreas de primeira evangelização. Possa o nosso novo beato ser um exemplo para todos os Diretores Nacionais e Diocesanos das Pontifícias Obras Missionárias em todo o mundo.”

Essa referência do Papa dá uma dimensão particularmente significativa à próxima beatificação. Sheen não será apresentado apenas como alguém que utilizou com sucesso uma tecnologia de comunicação de massa. Sua vida será proposta à Igreja como testemunho de que os meios de comunicação podem tornar-se instrumentos de missão quando colocados a serviço do anúncio do Evangelho.

Da “Catholic Hour” ao mundo digital

A experiência de Fulton Sheen ganha nova atualidade diante da transformação radical do ecossistema da comunicação. Se no século XX o desafio era chegar às casas por meio do rádio e da televisão, hoje a evangelização acontece também em ambientes digitais nos quais milhões de pessoas passam grande parte de seu tempo.

O próprio legado de Sheen continua sendo difundido por meios contemporâneos. Seus programas, gravações, homilias e escritos vêm sendo preservados e disponibilizados através de plataformas digitais, permitindo que sua voz alcance novas gerações. A missão atualmente desenvolvida em torno de seu legado procura justamente preservar, distribuir e utilizar esses conteúdos para a evangelização.

Nesse sentido, a mensagem de Leão XIV às vésperas da beatificação ultrapassa a recordação histórica. Ao pedir que o exemplo de Sheen inspire “novas maneiras” de anunciar o Evangelho, o Papa estabelece uma ponte entre a experiência daquele comunicador do século XX e os desafios missionários do século XXI.

Arcebispo Fulton Sheen rumo à beatificação
Sua causa de canonização foi aberta em nível diocesano em 2002 e, em 15 de abril de 2008, sua fase romana teve início na Congregação para as Causas dos Santos. 

“Alegria” e criatividade na missão

Há ainda uma expressão particularmente importante na saudação papal: “alegre entusiasmo”. A evangelização, segundo essa perspectiva, não pode ser reduzida à transmissão de informações religiosas. Ela nasce de uma experiência de fé que procura ser comunicada com entusiasmo e criatividade.

Fulton Sheen parece ter compreendido isso ao entrar nos ambientes de comunicação de seu tempo. Em vez de esperar que as pessoas fossem até os espaços tradicionais da Igreja, ele levou sua mensagem para onde elas estavam. O rádio entrou nas casas; depois, a televisão entrou nas salas de milhões de famílias. Sua estratégia comunicativa pode, assim, ser lida como uma expressão concreta da dimensão missionária da Igreja.

A beatificação em Saint Louis, portanto, não apenas uma forma de homenagem a uma personalidade de grande projeção pública, mas ocasião para redescobrir uma questão fundamental da missão cristã: onde estão as pessoas e quais linguagens podem ajudá-las a ouvir novamente a mensagem do Evangelho?

A resposta de Fulton Sheen foi buscar os meios de comunicação disponíveis em seu tempo. A provocação de Leão XIV aponta para o presente: cabe às novas gerações encontrar, com o mesmo entusiasmo missionário, os caminhos pelos quais a mensagem de Cristo possa continuar sendo anunciada no mundo contemporâneo.

O arcebispo Fulton Sheen foi declarado Venerável em 2012, depois do reconhecimento de suas virtudes heroicas por Bento XVI. Em 2019, o Papa Francisco autorizou o decreto que reconheceu um milagre atribuído à sua intercessão, abrindo o caminho para a beatificação. Aos 84 anos, Sheen morreu em Nova York, em 9 de dezembro de 1979.

A celebração desta quinta-feira, 24 de setembro, no Dome at America’s Center, em Saint Louis, será, assim, o reconhecimento de uma vida dedicada ao sacerdócio, à pregação, à formação e à comunicação da fé. E, como sugere Leão XIV, seu legado poderá continuar sendo uma pergunta dirigida aos evangelizadores de hoje: como utilizar as novas linguagens da comunicação não apenas para falar sobre Deus, mas para ajudar as pessoas a encontrar Cristo?

Texto: Vatican News