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Assessor de Campanhas da CNBB explica sobre a Campanha da Fraternidade 2023

21 de março de 2023

A Quarta-Feira de Cinzas, que neste ano ocorreu em 22 de fevereiro, além de ser o início da Tempo da Quaresma, marca também a abertura da Campanha da Fraternidade (CF): uma ação única, celebrada exclusivamente pela Igreja Católica no Brasil. Neste ano, a CF 2023 traz como tema “Fraternidade e Fome” e como lema “Dai-lhes vós mesmos de comer!” (Mt 14,16), de modo a chamar a atenção dos cristãos para essa realidade que, ainda hoje, aflige mais 33 milhões de brasileiros.

Em entrevista ao Departamento Arquidiocesano de Comunicação (Dacom), o Assessor de Campanhas da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Padre Jean Poul Hansen, explica sobre a Campanha da Fraternidade deste ano. Confira:

Padre Jean Poul Hansen é o Assessor de Campanhas da CNBB. Foto: Arquivo pessoal

Dacom: O que motivou “Fraternidade e fome” ser escolhido como o tema da Campanha da Fraternidade 2023?

Pe. Jean: O tema foi escolhido pela CNBB, por meio do Conselho Episcopal Pastoral, em 2021, quando o Brasil, passando pela pandemia da Covid-19, voltava ao mapa da fome da Organização das Nações Unidas (ONU), o que demonstrava a gravidade da situação da Insegurança Alimentar no nosso país.

Dacom: Esta é a terceira vez que a Campanha da Fraternidade tem como tema a fome e, mais uma vez, é em um contexto de realização do Congresso Eucarístico Nacional. Há alguma relação da realização do evento e a escolha do tema da CF? O que diferencia a abordagem de 2023 dos anos anteriores? 

Pe. Jean: A proximidade das três Campanhas da Fraternidade sobre a fome (1975, 1985 e 2023) aos três Congressos Eucarísticos Nacionais (Manaus, Aparecida e Recife) é antes de tudo providencial. Isto se revela de forma clara na última ocorrência, pois a escolha do tema da CF 2023 não foi condicionada pelo 18º CEN do Recife, que estava agendado para 2020. Mas, por causa da pandemia da Covid-19 ele foi prorrogado até chegar, providencialmente, às vésperas da CF 2023.

Outra é a relação temática: o flagelo da fome, para nós cristãos, sempre estará relacionado à Eucaristia, pois nela Deus nos sacia a todos e nos ensina a fazer o mesmo. Dom Luciano Mendes de Almeida, afirmava, certa feita, num artigo, que “enquanto um irmão nosso morrer de fome no mundo, teremos que começar todas as celebrações eucarísticas pedindo: Senhor, tende piedade de nós! Cristo, tende piedade de nós!”

As edições de 1975 e 1985 da CF sobre a fome ocorreram em cenários bastante diferentes do atual. Vivíamos, naquele tempo, o desenvolvimentismo e o retorno democrático, respectivamente. Hoje, num contexto diferente, já fizemos a experiência de ter saído do mapa da fome, já sabemos que é possível alimentar todos os brasileiros, até mesmo os socialmente mais vulneráveis. O Brasil tornou-se o “celeiro do mundo”. É o segundo maior produtor de grãos e o maior produtor de proteína animal do mundo. Não há razão que justifique 33,1 milhões de irmãos nossos a padecer a Insegurança Alimentar Grave de não saber quando farão a próxima refeição.

Dacom: “Dai-lhes vós mesmos de comer!” (Mt 14,16) é o lema da CF deste ano. Por que essa passagem bíblica foi escolhida e o que ela significa?

Pe. Jean: O lema foi escolhido pelos bispos juntamente com o tema. Destaca-se aí o imperativo de Jesus para todos nós, seus discípulos: “Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14,16). O lema escolhido deseja conscientizar-nos a todos de nossa responsabilidade pessoal, ainda que não sejamos capazes com nossos parcos “cinco pães e dois peixes” (Mt 14,17) de solucionar todo o problema da fome no Brasil e no mundo.

No entanto, cada um de nós não pode negligenciar a sua participação total, ainda que pequena. Como outrora, na passagem bíblica, hoje há uma multidão faminta. Se não nos deixarmos tocar pela lógica de Jesus e do Evangelho, seremos tentados como os discípulos daquele tempo a despedir a multidão para que ela se vire para comprar comida. Mas, hoje como ontem, é o próprio Senhor Jesus que nos ensina a colocar o bem comum acima do meu bem individual e partilhar tudo, ainda que seja pouco. Tudo aquilo que partilhamos passa por Ele, que tudo transforma em Eucaristia – ação de graças ao Pai, porque seus filhos estão compreendendo e vivendo a lógica dele – e devolve a nós para que, como seus discípulos, distribuamos a quem tem fome. A saciedade e a fartura são certas. O desperdício não.

Dacom: Diante do contexto atual, em que mais de 33 milhões de pessoas não têm garantido o alimento e o Brasil retornou ao mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU), qual é a importância da Igreja no Brasil, por meio da CF, refletir sobre a fome?

Pe. Jean: O primeiro grande estudioso da fome no Brasil, o Dr. Josué de Castro, afirmava que “há uma conspiração do silêncio em torno à fome”. E isto ainda é verdade. Não vemos a fome estampada diariamente nos jornais e revistas, noticiada nas TVs ou nos grandes sites de notícia. A realidade da fome é normalmente “empurrada para debaixo do tapete”, invisibilizada para anestesiar as nossas consciências. É aqui que entra a CF 2023, que quer “sensibilizar a sociedade e a Igreja para enfrentarem o flagelo da fome, sofrido por uma multidão de irmãos e irmãs, por meio de compromissos que transformem esta realidade a partir do Evangelho de Jesus Cristo” (Obj. Geral da CF 2023). Sensibilizar para a ação concreta de superação a partir do Evangelho. É isto o que queremos. É disto que precisamos. É esta a incidência da CF 2023 na sociedade e na Igreja. Quando Jesus afirma no Evangelho: “eles não precisam ir embora” (Mt 14,16), nós podemos dizer: eles não precisam, eles não podem ser invisibilizados! É preciso falar da fome, é preciso trazer a fome para cima da mesa.

Dacom: Qual deve ser o papel da Igreja e dos fiéis católicos no combate à fome? Poderia citar alguns exemplos práticos. 

Pe. Jean: O papel da Igreja e dos fiéis católicos, mas também de todos os cristãos, é o papel dos discípulos no Evangelho. Empenhando-nos e comprometendo-nos pessoal, eclesial e socialmente somos os responsáveis pela solução do flagelo da fome em nosso meio. A saciedade não é responsabilidade de uns poucos, mas de todos, que são desafiados pelo Senhor a dar tudo, ainda que o meu e o seu tudo seja muito pouco – “cinco pães e dois peixes” (Mt 14,17). A todos nós o Senhor diz: “trazei-os aqui” (Mt 14,18).

O texto-base da CF 2023, no capítulo IV, intitulado “Agir para transformar a realidade da fome” apresenta uma série de sugestões de ações práticas nos níveis pessoal, comunitário-eclesial e sociopolítico. Poderíamos aqui exemplificar uma ação em cada um desses níveis com a certeza de estarmos reduzindo muito a série de sugestões: transformar o seu jejum em comida digna e saudável para quem não tem; utilizar os terrenos da Igreja para desenvolver hortas comunitárias que favoreçam uma alimentação saudável às comunidades mais carentes; cobrar dos nossos governantes investimentos concretos numa sólida política de alimentação saudável para o povo brasileiro, que seja política de Estado e não só de governo.

Dacom: Um dos objetivos específicos da CF é desvelar as causas estruturais da fome no Brasil. Na sua opinião, quais seriam essas causas e quais são os caminhos para combatê-las?

Pe. Jean: São muitas as causas da fome no Brasil, algumas históricas, outras atuais. O texto-base da CF 2023 apresenta algumas causas estruturais:

  • a injusta distribuição da terra, desde a colonização portuguesa, é a raiz de toda a desigualdade no Brasil. Enquanto nos países de antiga tradição, como os países europeus, a terra foi distribuída entre todas as famílias, no Brasil, a terra foi distribuída em sesmarias ou capitanias hereditárias a uns poucos privilegiados. Ao restante da população ficou a escolha entre ser meeiros ou escravos;
  • o poder que o sistema econômico-financeiro exerce subjugando o sistema produtivo brasileiro é outra grave causa da fome. No Brasil, o grande investimento financeiro é direcionado ao agronegócio exportador de commodities, enquanto a agricultura familiar, responsável por 75% dos alimentos que chegam à mesa do brasileiro, tem que se contentar com migalhas;
  • a precarização das leis e dos diretos trabalhistas ecoam diretamente na alimentação dos brasileiros, especialmente nos mais carentes;
  • a política de não valorização do salário mínimo, enquanto todo o restante sobe: água, luz, combustíveis, aluguéis, preços da cesta básica, etc. é causa da fome no Brasil, entre outras.

A superação da fome no Brasil passa necessariamente por uma justa redistribuição da terra, pela valorização real do salário mínimo, por uma sólida política trabalhista e por uma necessária e justa reforma tributária.

Sem “Terra, Teto e Trabalho”, diria o Papa Francisco, não haverá vida digna e alimentação saudável para os filhos e filhas de Deus.

Leia também a matéria especial do Jornal Pastoral sobre a CF 2023: CLIQUE AQUI

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